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Outras considerações sobre a FLIP 2011

Ontem, escrevi algumas impressões sobre a FLIP 2011 para o Vereda Estreita. O texto era maior e talvez estivesse um pouco confuso. Cortei e reorganizei os parágrafos, deixando algumas considerações de fora. As que sobraram e me pareceram interessantes, mantive e publico por aqui.

Eu não assisti todas as mesas da FLIP 2011, mas, ao final da festa, gostei da seleção de eventos culturais dos quais participei nos cinco dias que passei em Paraty. Nunca tinha ouvido Antonio Candido falar, tampouco tinha visto uma peça do Teatro Oficina. Comecei a FLIP fascinada com as sábias palavras de nosso maior crítico literário e terminei um pouco assustada, após receber dois convites de belas atrizes para tirar a roupa em frente das cerca de 2 mil pessoas que aguentaram as quase 4 horas da Macumba Antropófaga de Zé Celso.

Antonio Candido por Alexandre Benoit. "Um grande escritor só vai ser lido e reconhecido trinta anos depois de sua morte." (do blog da FLIP)

Na mesa de abertura da 9ª Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, Antonio Candido contou histórias de sua convivência com Oswald de Andrade, o homenageado desta edição, que era 30 anos mais velho que ele. Falando de alguma briga do poeta com críticos literários da época ou narrando o desentendimento de Oswald com o amigo Mário de Andrade, Candido finalizava as frases com um saudoso “isso era muito dele”. Na mesma mesa, o compositor e também professor da USP José Miguel Wisnik apresentou uma visão mais distanciada do poeta modernista, como ele é visto pela academia hoje e quais as influências de Oswald de Andrade em sua própria formação.

Ainda na programação principal, as mesas com Andrés Neuman, valter hugo mãe, Joe Sacco e João Ubaldo Ribeiro foram as que mais me agradaram – além de terem agradado ao público em geral, que lotou as filas de autógrafos (na FLIP, o melhor modo de medir a popularidade dos autores após as mesas das quais participam).

Os 500 exemplares que a Livraria da Vila levou para Paraty de “a máquina de fazer espanhóis”, novo romance de valter hugo mãe (que não usa maiúsculas nem em seu nome), se esgotaram ainda no sábado, um dia após a mesa do escritor. mãe passou quase 4 horas autografando livros após cativar a platéia com sua fala, onde a escrita parece natural, e com um texto lido ao final da mesa sobre sua relação com o Brasil (vídeo no post abaixo, texto AQUI). A escritora argentina Pola Oloixarac, que prometia ser a musa desta FLIP, foi ofuscada pelo carisma de valter hugo mãe, escritor português nascido em Angola (ele mora desde muito novo em Portutal).

Tive a impressão de que a programação paralela cresceu e foi mais prestigiada pelo público este ano. Na Casa de Cultura, as peças “O Outro”, com Lourenço Mutarelli, e “Tarsila”, com texto de Maria Adelaide Amaral, estavam lotadas. “Tarsila” teve tanta procura que foi até transferida para a Tenda dos Autores. Sendo que “Tarsila”, na verdade, foi uma leitura dramática da peça realizada por Eliane Giardini, José Rubens, Beth Golfman e Pascoal da Conceição, os mesmos atores que interpretaram, respectivamente, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Mário de Andrade na minissérie “Um só coração”, também de autoria de Maria Adelaide Amaral. [Aqui, insiro um parêntesis para dizer que, para mim, Pascoal da Conceição será sempre o Dr. Abobrinha.]

Eu também prestigiei o bate-papo entre Leandro SarmatzCarlos de Brito e Mello, na Casa de Cultura. A conversa entre os dois autores recebeu o nome de “Máscaras e fantasmas”. As máscaras seriam do primeiro e os fantasmas do segundo. Não há fantasmas em Mello e há apenas algumas metáforas com máscaras em Sarmatz, mas a ligação entre as obras dos dois autores vai além do título um tanto quanto forçado. Os dois falam de abandono, de solidão, de morte. Aspectos intrínsecos à vida social que são abordados com certa melancolia (melancolia esta que é mais clara em “Uma Fome”, de Sarmatz, mas está latente em “A Passagem Tensa dos Corpos”, de Mello).

O show ou o encerramento desta FLIP renderiam textos a parte. Não conhecia as composições de José Miguel Wisnik e achei-as lindas. Sobre a peça, acho que ainda não tenho palavras suficientes para comentá-la. Foi uma experiência estranha sobre a qual precisaria elaborar melhor.

Alguns link interessantes:

Entrevista do Estadão como valter hugo mãe: AQUI, em vídeo.

A Folha fez uma Sabatina com Joe Sacco que rendou uma história em quadrinhos. O Gui Dearo fez uma entrevista com ele.

Textos sobre as mesas de Péter Esterházy com Emmanuel CarrèreContardo Calligaris com Ignácio de Loyola Brandão.

Uma crônica muito simpática do Antônio Prata sobre groupies literárias: AQUI, o oficial para assinantes Folha/UOL, e AQUI, republicada por alguém.

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Algumas impressões sobre a FLIP 2011

Oswald de Andrade esteve na FLIP 2011 como dificilmente outro escritor homenageado pela festa estará. Das três edições da FLIP que acompanhei, esta foi aquela em que a homenagem melhor se enraizou na programação. Oswald não foi debatido apenas na mesa de abertura ou em algumas mesas menos prestigiadas pelo público ao longo da festa. Ele esteve nas palavras de Antonio Candido na conferência inicial, mas também nas canções do show de abertura, em que José Miguel Wisnik (que também falou na primeira mesa), Celso Sim e Elza Soares cantaram adaptações feitas a partir de poemas do modernista, e também na “Macumba Antropófaga” com que Zé Celso e sua equipe do Teatro Oficina encerraram a festa.

Imagem do começo da Macumba Antropófaga que encerrou a FLIP 2011

Imagem do começo da “Macumba Antropófaga”, que encerrou a FLIP 2011.

Na programação principal, João Ubaldo Ribeiro e o escritor português nascido em Angola valter hugo mãe (que não usa maiúsculas nem em seu nome) foram os autores que mais cativaram o público. Ubaldo por suas divertidas histórias e mãe por uma fala onde a escrita parece natural (além de um texto sobre sua relação com o Brasil lido ao final da mesa, que levou boa parte do público às lágrimas). Miguel NicolelisAndrés Neuman e Joe Sacco também chamaram bastante atenção.

Ao longo desta 9ª edição da FLIP, a impressão geral do público foi de que havia menos gente em Paraty este ano. No entanto, a estimativa é de que entre 20 e 25 mil pessoas estavam por lá durante o evento, a mesma estimativa da edição de 2009. Ano passado, o público estimado foi de 15 a 20 mil pessoas (a edição 2010 aconteceu em agosto, devido à Copa do Mundo). Acredito, então, que esta impressão se deva ao fato de que o número de eventos paralelos cresceu. Se o número de pessoas que assistiam as mesas literárias do lado de fora da tenda do telão diminuiu, a Casa de Cultura estava sempre mais ou menos cheia, muitos eventos da Casa Folha e da Casa SESC lotaram.

Outro fator que pode ter contribuído para a impressão de que a cidade estava mais vazia ou de que este ano estava mais fácil atravessar a ponte do rio que cruza a cidade foi a mudança de lugar na Tenda do Telão. Em 2011, a organização da FLIP reuniu todas as suas tendas do mesmo lado do rio em que nas edições anteriores ficava apenas a Tenda dos Autores. Em um único corredor, aproveitando o passeio reformado pela prefeitura, estavam reunidas as tendas dos autores, dos autógrafos, a livraria, a loja da FLIP, os estandes dos patrocinadores e, ao final de tudo, já na praia, a tenda do telão.


A leitura feita por valter hugo mãe ao final da mesa 6 da FLIP 2011. Vídeo: Divulgação/FLIP

Foi uma FLIP com bons autores, bons mediadores (das mesas que vi, nenhum mediador estragou as conversas, como às vezes acontece), com alguma polêmica (especialmente entre o curador e o cineasta e escritor judeu Claude Lanzmann) e com algum debate. Nas mesas literárias, é difícil que os escritores convidados efetivamente dialoguem entre si, para além de algumas semelhanças propostas pelos mediadores. Neste ponto, destaco a mesa entre os escritores colombianos Laura Restrepo e Hector Abad, que não só leram as obras um do outro como trocaram impressões a respeito.

Texto escrito e publicado hoje no Vereda Estreita.

O que a Virada Cultural não aprendeu em 6 anos

Virada Cultural 2011, a 7ª edição, começou com um belo show de Rita Lee, que não poupou palavrões às autoridades municipais e estaduais – sem o menor pudor por estar recebendo cachê da Prefeitura de São Paulo. “Moro em São Paulo há 65 anos, entra e sai prefeito e governador e eles não fazem p… nenhuma”, foi uma das tiradas que a cantora soltou enquanto cantava “Ovelha Negra”. As cerca de 20 mil pessoas presentes no palco da Praça Júlio Prestes (segundo estimativa da Polícia Militar) aplaudiram freneticamente.


Diluído
A estratégia da organização da Virada este ano foi concentrar a programação que atrai mais público no domingo. Percebeu-se que havia uma queda no número de pessoas do primeiro para o segundo dia e – após seis anos – resolveram tentar algo novo. De certa forma deu certo, pois a Virada realmente pareceu mais equilibrada – ou um pouco mais vazia em cada um dos dias.

Bebidas
A medida polêmica do prefeito Gilberto Kassab, que proibia a venda de bebidas alcoólicas durante os dois dias, foi aprovada por uns e condenada por outros. Claro que na prática não funcionou quase nada. Era possível ver vendedores ambulantes despreocupados, trabalhando com os artigos proibidos sem o menor pudor, com a tranqüilidade da falta de fiscalização a seu lado. Assim, na madrugada, a incômoda e inapropriada embriaguez da grande maioria dos “virantes” aconteceu novamente.

Problemas de som
A organização tem de entender de uma vez por todas que há certas apresentações que não encaixam bem em Viradas – seja por exigirem um primor técnico que requeira melhores condições para apreciar, seja por falta de estrutura ou pela falta de preparo do próprio público.


O show de Paulinho da Viola com a Orquestra e Cordas de Curitiba foi um exemplo derradeiro. Parte da plateia teve dificuldades para apreciar tamanha sensibilidade e minimalismo: o som estava baixo ao fundo e nas laterais do palco montado na Praça da República e, em ao menos três momentos, foi possível ouvir pedidos para que se aumentasse o som. (Uma falha no som já havia feito com que o músico – sempre exigente com a acústica de seus shows – demorasse mais de meia hora para entrar no palco, enquanto testavam equipamento e buscavam corrigir os problemas – não com total sucesso, infelizmente).

Pancadaria
Mais uma vez a Virada foi palco de pancadaria. Depois do traumatizante quebra-quebra ocorrido no show do Racionais MC’s em 2007, em 2011, apesar de todos os esforços para evitar, houve problema. No show da banda de punk horror Misfits, um carro da polícia resolveu passar no meio da multidão, e foi o estopim para que a violência e a falta de controle se instalassem. Muito nervosismo e despreparo das autoridades ficaram claros para quem estava assistindo ao show.

Fab4
Um ponto alto da Virada 2011 foi o palco dos já lendários Beatles 4Ever. Em 24 horas, os músicos tocaram, emocionaram e levantaram o público com todos os álbuns lançados pelos ingleses de Liverpool, sendo uma ótima alternativa pra qualquer intervalo de programações.

Integração
Apesar de todos os problemas e questões que ano após anos precisam ser revistas, a Virada Cultural sempre se apresenta como um evento democrático. Há apresentações para todos os gostos, só não vai quem não gosta de multidões. Mesmo assim, a multidão ali é diferente, em geral bem humorada (ao menos um pouco mais do que no dia-a-dia paulistano) e aberta a novas possibilidades – seja parando em um palco aleatório para ouvir uma música diferente, seja conversando sobre seu artista preferido com um desconhecido na multidão.

Um centro para a cidade
A Virada é também uma chance de conhecer o centro de São Paulo, em geral abandonado. Durante um dia comercial, há um grande movimento de lojas e escritórios. À noite, assusta. Aos domingos, lembra histórias de cidades fantasma, com prédios e pessoas abandonadas. Para onde vão essas pessoas durante este que se apresenta como um dos maiores eventos culturais da cidade de São Paulo?

Por que não nos sentimos seguros para frequentar o centro da cidade em outros finais de semana? Por que Paulinho da Viola não pode sorrir na Praça da República com mais frequência? Espalhar a Cracolândia e fechar albergues durante o ano para limpar o centro da cidade por dois dias, como vemos, não tem funcionado. Não foram gratuitos os xingamentos de Rita Lee.

Texto meu e do Victor Gouvea (@blasfemico) publicado dia 27 no Vereda Estreita.

Até logo, amigo!

Nesta quinta-feira (17), a nata da filmografia se reuniu em São Paulo. Fellini, Eric Rohmer, Marlon Brando, Marcelo Mastroiani, Luchino Visconti, Rodolfo Valentino e os Irmãos Marx se encontraram no Cine Belas Artes e – tristes – marcaram presença nas sessões em que o cinema se despediu da esquina da Consolação com a Paulista.

Cinéfilos e repórteres alvoroçados acompanharam em peso a homenagem. Um “até logo” esperançoso. O medo de que o “adeus” seja inevitável.

Texto escrito e publicado dia 18 no Vereda Estreita.

Dois nacionais em tempos de Oscar

Colocar um filme nacional em cartaz em tempos de Oscar parece (e imagino que seja) um grande suícidio. O assassinato do filme. Nosso cinema, salvo raras exceções, não costuma ser muito prestigiado em sua própria terra; concorrendo com os grandes destaques cinematográficos do ano então, fica difícil.

Talvez as distribuidoras de “O Samba que mora em mim” e “Malu de Bicicleta” não tenham imaginado que “Cisne Negro” e “O Discurso do Rei” dariam tanto o que falar. Mas deviam.

“O Samba que mora em mim” estreou por aqui nesta sexta, dia 11, mesma data de “O Discurso do rei”Bravura Indômita. O documentário fez sucesso na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, levando o Prêmio Especial do Júri Oficial – Documentários. Em sua estreia no grande circuito, no entanto, foi pouco comentado. O documentário retrata os moradores do Morro da Mangueira, que tem o samba em suas vidas, mas cujos relatos nem sempre falam de samba. É um belo filme, com bons personagens e um bonito trabalho de câmera.

Já o simpático “Malu de Bicicleta” estreou dia 4 de fevereiro, junto com“Cisne Negro”. E, igualmente, não rendeu comentários apesar de ter tido destaque nos Festivais do Rio (2010)Tiradentes (2011) e Paulínia(2010). No longa, Fernanda de Freitas e Marcelo Serrado são um casal inusitado, fruto da persistência de ambos; vítima do ciúme e da inveja. É um filme simples, com um ar de telefilme, mas os personagens e os cenários em que se passa  (uma praia carioca e uma antiga fábrica transformada em balada em São Paulo) têm seu charme.

Se chegassem ao circuito comecial em uma época diferente, acredito que tais longas atrairiam seu público. Há poucas semanas do Oscar – e disputando com os principais indicados da Academia de Hollywood – os longas nacionais perderam sua chance. Nessa hora, fico pensando se foi um erro inocente das distriuidoras ou se elas simplesmente descartaram seus filmes.

Enquanto isso, o Cine Belas Artes anunciou que fechará suas portas no dia 24 de fevereiro. São caminhos tristes estes que o nosso cinema tem trilhado.

Detalhes:

O Samba que Mora em Mim
País: Brasil
Diretora: Georgia Guerra-Peixe
Fotografia: Marcelo Rocha
Trilha Sonora: Dimi Kireeff
Ano: 2010
Estréia: 11 de fevereiro de 2011
Salas de exibição

Malu de Bicicleta
País: Brasil
Diretor: Flávio Ramos Tambellini
Fotografia: Gustavo Hadba
Trilha Sonora: Dado Villa-Lobos
Ano: 2010
Estréia: 04 de fevereiro de 2011
Salas de exibição

Texto escrito e publicado hoje no Vereda Estreita.

Um toque de arte em meio ao abandono

“Lixo Extraordinário” começa apresentando o artista plástico Vik Muniz, seus trabalhos no ateliê de Nova York e seu projeto de realizar fotografias de lixo no Jardim Gramacho, o maior aterro sanitário da América Latina, localizado na periferia do Rio de Janeiro. Em seguida, Vik e seu colega Fábio pesquisam juntos sobre Gramacho, que, de longe, se parece muito com o imaginário do “inferno na Terra”.

Conforme os artistas (e o filme) vão se aproximando do aterro e das pessoas que compõem aquele cenário, no entanto, o documentário vai ganhando uma dimensão humana que ameniza o horror de todo o lixo concentrado no Jardim Gramacho. Como eles lembram no longa, as pessoas que trabalham ali são tratadas como o lixo (ou pior): esquecidas, abandonadas à própria sorte.

Os depoimentos captados emocionam. No limite, é mais ou menos dessa forma que vive a maior parte da população do nosso país, pessoas que estão ali todos os dias e quase nunca são vistas. Um Brasil muito além das novelas ou dos filmes de favela. No lixão, a situação é bem pior.

A ideia que surge então é a da arte transformadora: Muniz convida um grupo de catadores de material reciclável para trabalhar com ele em sua série “Imagens do Lixo” – que depois fez muito sucesso exposta no MAM-Rio. Mas o próprio artista se questiona sobre qual será o efeito dessa interação na vida dos trabalhadores do Jardim Gramacho: para quem viu na arte uma possibilidade diferente de vida, como será voltar ao aterro?

“Lixo Extraordinário” vai levantando essas e outras reflexões enquanto mostra nuances psicológicas dos personagens fortes que trabalharam com Muniz e sua equipe. Em algumas cenas, é impossível conter a emoção – e as lágrimas derramadas trazem consigo a dor de um país imerso em abandono.

Detalhes:

Título: Lixo Extraordinário / Waste Land (facebook oficial)
País: Brasil, Reino Unido
Diretor: Lucy WalkerKaren HarleyJoão Jardim
Fotografia: Duda Miranda
Trilha Sonora: Moby
Ano: 2010
Estréia: 21 de janeiro de 2011
Salas de exibição

Foto: Marat Sabastião, por Vik Muniz. Divulgação.

P.S.: Em 2010, “Lixo Extraordinário” já conquistou os prêmios do Júri Popular nos festivais de BerlimSundance, além do Prêmio Especial do Júri e de melhor documentário do Júri Popular no Festival de Paulínia. O longa também disputa o Oscar 2011 de melhor documentário!

Texto escrito e publicado hoje no Vereda Estreita.

Um suspiro aliviado

Por hora, parece que [nós, cinéfilos] podemos respirar aliviados!

Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) votou hoje pela abertura do processo de tombamento do Cine Belas Artes!

Depois de meses de preocupação, e da tristeza causada pela reportagem da Folha que anunciava o fim do cinema, fiquei muito aliviada ao ver o seguinte texto divulgado pela assessoria de imprensa do Belas Artes:

“Conpresp abre processo de tombamento do Belas Artes

Em reunião ordinária realizada hoje, dia 18 de janeiro, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) decidiu pela abertura do processo de tombamento do Cine Belas Artes. Estudos técnicos para decisão quanto ao tombamento definitivo serão realizados nos próximos três meses.

“Estou muito feliz com a decisão do Conpresp hoje. A mobilização espontânea da sociedade foi incrível e inédita. Não lembro de mobilização por tema relacionado à cultura antes na cidade com tal dimensão. E a resposta da prefeitura foi imediata tomando a única decisão que daria tempo de manter a esperança do Belas Artes continuar existindo: a abertura do estudo de tombamento. Agradeço o apoio de todos e estamos otimistas que todo esse esforço será bem sucedido. O Belas Artes é um patrimônio cultural e afetivo da cidade e de seus moradores”, afirma André Sturm, proprietário do Belas Artes.”

Concordo com tudo o que diz a nota acima – e por isso a transcrevo para vocês. Agora é torcer para que o tombamento saia mesmo do papel – ou que, com isso, o dono do espaço ao menos desista de desalojar o cinema e, assim, este espaço tão querido aos cinéfilos paulistanos continue aberto!

 

OBS.: Em tempo: A direção do Belas Artes anunciou que o cinema deve ficar aberto, pelo menos, até o final de fevereiro, enquanto eles trabalham para permanecer no imóvel. André Sturm, dono do cinema, disse que quer “ter tempo de negociar com o proprietário a renovação do contrato de locação”. [Bruna, 21/01]

Texto adaptado e publicado hoje no Vereda Estreita.

“A força da grana que ergue e destrói coisas belas”

Há uma semana, escrevi um texto com um título otimista sobre dois ótimos filmes (Para começar o ano bem). No entanto, este ano não começa bem para os cinéfilos da capital paulista. Previsto há algum tempo, mas não esperado, o final do Cine Belas Artes foi anunciado no último dia 6 em reportagem de capa do caderno Ilustrada, da Folha.

No final do ano passado, depois de já ter escrito reportagens sobre a situação do cinema, em uma cabine de imprensa realizada no Belas Artes, a assessora de imprensa do local disse aos jornalistas presentes que já havia um patrocínio quase certo. Era a salvação e, apesar do filme ser triste (“A Árvore”, que estreou essa semana e sobre o qual pretendia escrever antes de ter a ideia para este texto), fiquei aliviada.

Infelizmente, São Paulo é uma cidade que não respeita seu patrimônio cultural e artístico – e o proprietário do imóvel prefere ter uma loja no lugar do cinema. O Belas Artes não é o último cinema de rua da cidade, mas talvez seja o mais antigo. Evito usar “era” e “fosse” porque, em seu último suspiro (que vai até dia 27 de janeiro), André Sturm, dono do cinema, e sua equipe prepararam uma retrospectiva especial para “prestigiar seus fiéis e entusiastas frequentadores”, como anuncia o release da programação.

De 14 a 27 de janeiro, filmes que fizeram sucesso no Belas Artes serão exibidos às 18h30, e filmes clássicos do cinema às 21h. Os ingressos destas sessões custarão R$10,00 (R$5 a meia).

Confira a programação:

14/01
18:30h. “As Bicicletas de Belleville” (França, 2003; de Sylvain Chomet)
21:00h. “Amores Expressos” (China, 1994; de Wong Kar-wai)

15/01
18:30h. “Morte em Veneza” (Itália, 1971; de Luchino Visconti)
21:00h. “O Encouraçado Potemkin” (Rússia, 1925; de Serguei Eisenstein)

16/01
18:30h. “Paixão Selvagem” (França, 1976; de Serge Gainsbourg)
21:00h. “A Regra do Jogo” (França, 1939; de Jean Renoir)

17/01
18:30h. “Meu Tio” (França, 1958; de Jacques Tati)
21:00h. “Segunda-Feira ao Sol” (Espanha, 2002; de Fernando León de Aranoa)

18/01
18:30h. “O Ilusionista” (EUA/República Tcheca, 1976; de Neil Burger)
21:00h. “Música e Fantasia” (Itália, 1976; de Bruno Bozzetto)

19/01
18:30h. “Noites de Cabíria” (Itália, 1957; Federico Fellini)
21:00h. “Lúcia e o Sexo” (Espanha, 2001; de Julio Medem)

20/01
18:30h. “ Cría Cuervos” (Espanha, 1976; de Carlos Saura)
21:00h. “O Balão Vermelho” (França, 1956; de Albert Lamorisse)

21/01
18:30h. “As Bicicletas de Belleville” (França, 2003; de Sylvain Chomet)
21:00h. “A Lei do Desejo” (Espanha, 1987; de Pedro Almodóvar)

22/01
18:30h. “Pai Patrão” (Itália, 1977; de Paolo e Vittorio Taviani)
21:00h. “Apocalypse Now” (EUA, 1979; de Francis Ford Coppola)

23/01
18:30h. “Gritos e Sussurros” (Suécia, 1972; de Ingmar Bergman)
21:00h. “O Passageiro – Profissão: Repórter” (Itália, 1975; de Michelangelo Antonioni)

24/01
18:30h. “Z” (França, 1969; de Costa-Gravas)
21:00h. “Quanto Mais Quente Melhor” (EUA, 1959; de Billy Wilder)

25/01
16:00h. “A Guerra dos Botões” (França, 1962; de Yves Robert)
18:30h. “ Crônica do Amor Louco” (Itália, 1981; de Marco Ferreri)
21:00h. “A Guerra dos Botões” (França, 1962; de Yves Robert)

26/01
18:30h. “Johnny Vai á Guerra” (EUA, 1971; de Dalton Trumbo)
21:00h. “Vestida Para Matar” (EUA, 1980; de Brian de Palma)

27/01
18:30h. “Possessão” (Alemanha/França, 1981; de Andrzej Zulawski)
21:00h. “A Malvada” (EUA, 1950; de Joseph L. Mankiewicz)

Cine Belas Artes: Rua Consolação, 2423 – Consolação. São Paulo-SP. Informações: (11) 3258-4092

Aproveite enquanto há tempo, a esquina da Paulista com a Consolação ficará mais triste.

Texto escrito e publicado dia 8 no Vereda Estreita.

Para começar o ano bem

Neste 1º de janeiro, chegam aos cinemas dois ótimos filmes: “Fora da Lei” e “O primeiro que disse”.

“Fora da Lei”

Um drama com aparência de filme de gângster, retrata a trajetória de três irmãos argelinos e de sua mãe, é um filme tenso, pesado e triste. E sua tristeza aumenta ainda mais por se passar na época das lutas de independência da Argélia.

Os conflitos entre França e Argélia marcaram a vida de Saïd (Jamel Debbouze), Messaoud (Roschdy Zem) e Abdelkader (Sami Bouajila) e de sua mãe, uma personagem forte e sem nome, que poderia representar todas as mães com filhos envolvidos nas situações por que passam os três irmãos.

Messaoud luta pela França na Indochina, Abdelkader é preso por participar de uma passeata pela libertação de seu país e Saïd, o irmão mais novo e que tenta se manter distante em seus negócios ilíciitos com cabarés e lutas de boxe, vê seus irmãos e até mesmo os negócios afetados. Depois que a família se muda para a França, os dois irmãos mais velhos se envolvem na luta armada pela independência da Argélia e o filme, de drama familiar, passa a retratar a violência e os excessos de ambos os lados da disputa colonialista. A presença feminina, em especial os olhares tristes da mãe, agravam ainda mais a tristeza do que se vê na tela.

“Fora da Lei” é uma produção franco-argelina, retrata a violência e os excessos de ambos os lados da disputa do meio dos anos 1930 até a independência da Argélia em 1962. O longa causou grande polêmica na França e sua exibição no Festival de Cannes teve até a segurança reforçada, por medo de sabotagens.

“O primeiro que disse”

Depois de um filme tenso, a outra estreia deste começo de ano pode ajudar a descontrair. Gostaria de escrever sobre o filme “O primeiro que disse” (Mine Vaganti) sem estragar a surpresa que me causou. Infelizmente, é impossível comentá-lo sem revelar alguns detalhes (ver um bom filme sem saber do que se trata é uma experiência artística que desejo a todos!). Esta comédia italiana retrata dois irmãos gays envolvidos em um dilema: seguir com suas vidas ou assumir os negócios da família conservadora e ficar vivendo na pequena cidade em que seus pais vivem.

Antonio, o primeiro que fala, como revela o título, é o que se dá melhor. Encurralado, seu irmão Tomasso (Riccardo Scamarcio), que tinha intenção de contar antes, se vê distante de seu namorado e da vida que deixou em Roma. Ele vai ficando na bela e pequena Lecce, faz amizade com a filha do sócio de seu pai e até se diverte um pouco, mas está infeliz.

Está é a primeira metade do filme: a família, a tristeza e a amizade com a bela Alba (Nicole Grimaudo). Então, os amigos de Tomasso (e seu namorado) decidem visitá-lo em Lecce. E aqui o filme se assume, como se ele próprio saísse do armário: os três amigos tentam esconder uma divertida afetação e Mateo, o namorado deixado em Roma, é discreto e charmoso.

Marcante na trilha sonora, a música “50 mile”, de Nina Zille, que o protagonista dança em frente ao espelho logo no começo do filme, já anuncia o que o espectador verá na cena em que os cinco amigos e Alba, perfeitamente integrada, dançam “Sorry, I’m a Lady”, de Baccara, na praia. Genial!

Outro destaque do filme é a matriarca da família, a nona de Tomasso: a atriz Ilaria Occhini interpreta uma senhora diabética, viciada em doces, e com um passado que a persegue, um detalhe sempre presente no filme. Compreensiva, ela é a única que sempre soube que seus dois netos eram gays, embora ninguém mais suspeitasse. Ela sabe que não se pode fugir do passado, das escolhas e mentiras que deixamos para trás. Talvez seja a “nona” (curiosamente sem nome) o grande eixo motor do longa: ela é o porto seguro dos netos, faz a alegria e tristeza da família e serve como elemento conciliador.

“O primeiro que disse” é leve e divertido, sem deixar de fora a reflexão sobre o preconceito, os tabus familiares, os desafios encontrados pela população homossexual em comunidades fechadas e conservadoras, e as escolhas sem volta que tomamos na vida.

Detalhes:

“Fora da Lei”
Título: Hors-la-loi (sítio oficial)
País: França, Argélia, Bélgica e Tunísia.
Diretor: Rachid Bouchareb
Fotografia: Christophe Beaucarne
Trilha Sonora:  Armand Amar
Ano: 2010

O primeiro que disse
Título original: Mine Vaganti (sítio oficial)
País: Itália.
Diretor: Ferzan Ozpetek
Fotografia: Maurizio Calvesi
Trilha Sonora:  Pasquale Catalano
Ano: 2010

Texto escrito e publicado dia 1º no Vereda Estreita.

Um brinde ao cinema nacional

Muitos espectadores ainda acreditam que o cinema nacional não tem valor: são os mesmo que valorizam apenas as grandes produção de Hollywood. No entanto, parece que uma boa parte deles se rendeu e foi ao cinema ver ‘Tropa de Elite 2‘.

O filme dirigido por José Padilha atingiu nesta terça-feira (07) a marca de 10.736.995 espectadores, segundo o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual da Ancine, se tornando o filme mais visto de toda a história do cinema brasileiro. A continuação da saga de Nascimento ultrapassou ‘Dona Flor e seus Dois Maridos‘ (1976) que liderou o ranking por mais de 30 anos com um público de 10.735.524.

‘Tropa de Elite 2′ estreiou nos cinemas em 8 de outubro e ainda está em cartaz com 331 cópias em todo o Brasil. Na próxima semana, que será sua décima em cartaz, aproximadamente 200 salas estarão exibindo o longa.

O Brasil está entrando na rota de divulgação de filmes internacionais e nosso cinema também tem crescido. O segundo Tropa de Elite foi convidado para participar de Sundance (e o primeiro ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2008).

Neste mês acontece também a 11ª Retrospectiva do Cinema Brasileiro, que o Cinesesc promove em São Paulo até dia 30 de dezembro. A mostra exibe 74 títulos nacionais lançados no ano de 2010, entre os quais se destacam ‘Tropa de Elite 2′, ‘ Chico Xavier’, ‘Lula, O Filho do Brasil’, ‘Nosso Lar’, ‘Uma Noite em 67′ e também filmes menos prestigiados pelo público, mas que valem muito a pena como ‘O Sol do Meio Dia’, ‘ Os Famosos e os Duendes da Morte’, ‘ É Proibido Fumar’, ‘Hotel Atlântico’ e ‘Cabeça a Prêmio’, entre outros.

Texto escrito e publicado hoje no Vereda Estreita.