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“A força da grana que ergue e destrói coisas belas”

Há uma semana, escrevi um texto com um título otimista sobre dois ótimos filmes (Para começar o ano bem). No entanto, este ano não começa bem para os cinéfilos da capital paulista. Previsto há algum tempo, mas não esperado, o final do Cine Belas Artes foi anunciado no último dia 6 em reportagem de capa do caderno Ilustrada, da Folha.

No final do ano passado, depois de já ter escrito reportagens sobre a situação do cinema, em uma cabine de imprensa realizada no Belas Artes, a assessora de imprensa do local disse aos jornalistas presentes que já havia um patrocínio quase certo. Era a salvação e, apesar do filme ser triste (“A Árvore”, que estreou essa semana e sobre o qual pretendia escrever antes de ter a ideia para este texto), fiquei aliviada.

Infelizmente, São Paulo é uma cidade que não respeita seu patrimônio cultural e artístico – e o proprietário do imóvel prefere ter uma loja no lugar do cinema. O Belas Artes não é o último cinema de rua da cidade, mas talvez seja o mais antigo. Evito usar “era” e “fosse” porque, em seu último suspiro (que vai até dia 27 de janeiro), André Sturm, dono do cinema, e sua equipe prepararam uma retrospectiva especial para “prestigiar seus fiéis e entusiastas frequentadores”, como anuncia o release da programação.

De 14 a 27 de janeiro, filmes que fizeram sucesso no Belas Artes serão exibidos às 18h30, e filmes clássicos do cinema às 21h. Os ingressos destas sessões custarão R$10,00 (R$5 a meia).

Confira a programação:

14/01
18:30h. “As Bicicletas de Belleville” (França, 2003; de Sylvain Chomet)
21:00h. “Amores Expressos” (China, 1994; de Wong Kar-wai)

15/01
18:30h. “Morte em Veneza” (Itália, 1971; de Luchino Visconti)
21:00h. “O Encouraçado Potemkin” (Rússia, 1925; de Serguei Eisenstein)

16/01
18:30h. “Paixão Selvagem” (França, 1976; de Serge Gainsbourg)
21:00h. “A Regra do Jogo” (França, 1939; de Jean Renoir)

17/01
18:30h. “Meu Tio” (França, 1958; de Jacques Tati)
21:00h. “Segunda-Feira ao Sol” (Espanha, 2002; de Fernando León de Aranoa)

18/01
18:30h. “O Ilusionista” (EUA/República Tcheca, 1976; de Neil Burger)
21:00h. “Música e Fantasia” (Itália, 1976; de Bruno Bozzetto)

19/01
18:30h. “Noites de Cabíria” (Itália, 1957; Federico Fellini)
21:00h. “Lúcia e o Sexo” (Espanha, 2001; de Julio Medem)

20/01
18:30h. “ Cría Cuervos” (Espanha, 1976; de Carlos Saura)
21:00h. “O Balão Vermelho” (França, 1956; de Albert Lamorisse)

21/01
18:30h. “As Bicicletas de Belleville” (França, 2003; de Sylvain Chomet)
21:00h. “A Lei do Desejo” (Espanha, 1987; de Pedro Almodóvar)

22/01
18:30h. “Pai Patrão” (Itália, 1977; de Paolo e Vittorio Taviani)
21:00h. “Apocalypse Now” (EUA, 1979; de Francis Ford Coppola)

23/01
18:30h. “Gritos e Sussurros” (Suécia, 1972; de Ingmar Bergman)
21:00h. “O Passageiro – Profissão: Repórter” (Itália, 1975; de Michelangelo Antonioni)

24/01
18:30h. “Z” (França, 1969; de Costa-Gravas)
21:00h. “Quanto Mais Quente Melhor” (EUA, 1959; de Billy Wilder)

25/01
16:00h. “A Guerra dos Botões” (França, 1962; de Yves Robert)
18:30h. “ Crônica do Amor Louco” (Itália, 1981; de Marco Ferreri)
21:00h. “A Guerra dos Botões” (França, 1962; de Yves Robert)

26/01
18:30h. “Johnny Vai á Guerra” (EUA, 1971; de Dalton Trumbo)
21:00h. “Vestida Para Matar” (EUA, 1980; de Brian de Palma)

27/01
18:30h. “Possessão” (Alemanha/França, 1981; de Andrzej Zulawski)
21:00h. “A Malvada” (EUA, 1950; de Joseph L. Mankiewicz)

Cine Belas Artes: Rua Consolação, 2423 – Consolação. São Paulo-SP. Informações: (11) 3258-4092

Aproveite enquanto há tempo, a esquina da Paulista com a Consolação ficará mais triste.

Texto escrito e publicado dia 8 no Vereda Estreita.

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Cine Belas Artes pode fechar até o final de outubro

O Cine Belas Artes, tradicional reduto dos cinéfilos paulistanos, perdeu seu patrocínio em março deste ano. Sozinho, o cinema não consegue se manter e, se não conseguir um patrocínio até o meio deste mês, o Belas Artes pode fechar no final de outubro.

Leia mais:
Cine Belas Artes luta para não fechar as portas

No mês de julho, o RedeTVi produziu uma reportagem sobre a situação do cinema. Na ocasião, um grupo de restaurantes estava organizando uma campanha para ajudar o cineclube a se manter. Encerrada em setembro, a campanha ‘Tudo pode dar certo’ arrecadou cerca de R$45 mil, que ainda estão ajudando o Belas Artes a lidar com seu deficit.

A equipe do Cine Belas Artes informou que ainda não há nenhuma proposta de patrocínio concreta e que “recursos acumulados anteriormente que estão servindo para cobrir o deficit mensal”.

O medo dos frequentadores é que o cinema se deteriore e vá fechando aos poucos, semelhante ao que aconteceu com o Gemini (tradicional cinema de rua de São Paulo que fechou recentemente). Mas os administradores garantem [embora não console]: “fecharemos o cinema antes”.

O risco de fechar está cada vez mais próximo. Segundo o Belas Artes, “o cinema fechará no final de outubro impreterivelmente caso não surja algo concreto até a metade desse mês.”

Matéria escrita e publicada quinta-feira (07) no Portal da RedeTV.

Cine Belas Artes luta para não fechar as portas

No final de março, o Cine Belas Artes, tradicional cinema de rua paulistano, encerrou sua parceria de 6 anos com um grande banco internacional, que integrava o nome do cinema desde 2004. Sem patrocínio, o cinema corre o risco de fechar antes do final do ano.

Aberto desde 1952, o Belas Artes já teve vários donos, nomes e patrocinadores, mas sempre se destacou por sua programação diferenciada. O atual sócio-proprietário, André Sturm, dono da distribuidora Pandora Filmes, afirma que “não dá para cobrir os gastos só com a bilheteria. As despesas chegam perto de 2 milhões de reais por ano.” E os gastos são muitos: por ser um cinema de rua, aluguel e IPTU são muito maiores que nos cinemas de shopping, além do gasto com os mais de 30 funcionários (um número bem acima da média).

Sturm frequenta o Belas Artes desde a infância, quando seus pais o levavam às matines do cinema. Ele conta que, em 2003, durante outra grande crise do local, decidiu “comprar a causa, literalmente”. Nesses 7 anos à frente do Belas Artes, o amor pelo local só cresceu. “A parte mais interessante é fazer a programação, tentando sempre colocar bons filmes em cartaz. Afinal, é principalmente esse detalhe que faz a tradição do lugar”, revela.

O cinema se destaca dos típicos complexos da cidade de São Paulo por exibir filmes alternativos e também sucessos do circuito comercial. Por esse diferencial, muitos fãs se preocuparam ao ver que o cinema corre o risco de fechar – e alguns deles se mexeram pela causa.

Salvem o Belas Artes
Ao ler uma matéria sobre o possível fechamento de seu cinema favorito, a publicitária Elen Posse, de 23 anos, pensou “porquê ninguém faz nada para ajudar?” e resolveu montar um blog, o http://patrocineocinemabelasartes.blogspot.com/, e uma página no Twitter para ajudar o Belas Artes em sua busca por um patrocinador. Em um dia, o perfil @belasartescine somou mais de 1.000 seguidores e, segundo Elen, 10 empresas já entraram em contato com o blog sobre o patrocínio.

A jovem conta que não conhecia ninguém da administração do cinema antes de iniciar a campanha. “Quando vi o ‘boom’ de seguidores [no Twitter], entrei em contato com a Pandora para linkar o blog no site deles. E o André [Sturm] me ligou para agradecer o apoio e mandar a apresentação [que o Belas Artes envia para os interessados em patrocinar o cinema].”

Elen diz que, quando uma empresa entra em contato com o blog, ela imediatamente já repassa o contato para a Pandora. “Eu passo todas as propostas pro Sturm, por isso não sei como andam as negociações, mas há empresas grandes interessadas!”, comemora.

O grande objetivo da campanha é manter o cinema aberto, “conseguir um patrocinador o mais breve possível”, diz Elen. E o que a publicitária ganha com a iniciativa voluntária? “O ganho é poder continuar indo ao Belas Artes toda semana!” Ela começou a frequentar o cinema há 5 anos, quando se mudou para São Paulo. “Eu fui ver ‘Os Sonhadores’ lá e desde então vou sempre, [o preço] é acessível, tem uma boa programação e eu gosto da curadoria. ”

Como Sturm, a preocupação de Elen é com um possível fechamento. “É um cinema que não tem pretenção, mas mostra cultura, traz filmes diferentes. Meu medo é que vire uma loja.”

Tudo pode dar certo
Outra iniciativa de apoio é a campanha “Salve o Belas Artes: Tudo Pode Dar Certo”, idealizada pela restauratrice Marie-France Henry. Desde 05 de julho, e até 05 de setembro, quem colabora com R$ 5,00 em uma dos 17 restaurantes participantes recebe um convite válido para uma sessão de cinema, de segunda a quinta-feira. Na bilheteria, basta carimbá-lo para ganhar uma sobremesa de cortesia em qualquer um dos estabelecimentos que aderiram à campanha.

O arquiteto Rafic Farah também participou da ação e criou o design da campanha (cartazes, material gráfico etc). A produtora O2 Filmes, do cineasta Fernando Meirelles, e que é sócia do Belas Artes, fará um filme sobre a promoção que será exibido nos cinemas.

Marie-France diz que gosta de reunir restaurantes em torno de eventos e cardápios temáticos. “Em relação ao Belas Artes, era necessário reunir muitos restaurantes: primeiro porque o cinema é um ícone da cidade e diz respeito a um coletivo, portanto não teria sentido ter apenas um restaurante envolvido na ação. E também porque quanto mais contribuições em dinheiro conseguirmos, mais proveitosa será a ação”, conta.

A restauratrice afirma que foi fácil reunir os restaurantes em torno da causa: “todos os restaurantes participantes toparam entrar na ação logo que eu sugeri. A campanha está sendo muito bem recebida, tinha muita gente nos restaurantes querendo contribuir antes mesmo do início da ação”, comemora.

Marie frequenta o cinema há 30 anos e tem certeza de que sua campanha terá um bom resultado, “que não é só financeiro, mas de mobilização popular em torno do problema. E também para mostrar para qualquer eventual patrocinador o quanto o Belas Artes é importante, mobiliza restaurantes, clientes, mídia, opinião pública, etc.”

O ideal é que o cinema não dependa de iniciativas como esta. Marie acredita que a campanha vai gerar uma receita importante, que, ela espera, seja “o suficiente para manter o cinema até que ele encontre um novo patrocinador”.

Marie e Elen lembram da iniciativa uma da outra e reafirmam a importancia de campanhas como as delas. Mas Marie alerta: “não é saudável que qualquer empresa se mantenha a partir de iniciativas como esta. O cinema vai sim conseguir um patrocínio com tanta mobilização.”

Apesar do apoio dos fãs, Sturm conta que a única salvação para o cinema é uma nova parceria. “Definitivamente precisamos de patrocínio ou apoio de empresas.” Segundo ele, ainda não existe nenhuma proposta adiantada, “mas há algumas empresas interessadas.” Ainda bem!

Matéria escrita e publicada no Portal da RedeTV.