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Mona Dorf lança livro sobre ‘Autores e Ideias’ da literatura brasileira

A jornalista Mona Dorf lançou nesta segunda-feira (25) o livro ‘Autores e Ideias’, que reúne 35 entrevistas feitas por ela em seu programa ‘Letras e Leituras’, da Rádio Eldorado. No programa, Dorf entrevista celebridades do mundo artístico-cultural e, para o livro, selecionou apenas escritores brasileiros, entre as 500 entrevistas que realizou nos últimos quatro anos.

“No programa, eu converso com escritores, artistas, gente que gosta de ler. São conversas sobre as influências na vida e na carreira deles. No livro só há escritores brasileiros, de várias gerações. A ideia foi mesclar as gerações de forma a propiciar aos leitores uma viagem literária”, contou a escritora ao RedeTVi durante o lançamento.

Entre os autores presentes no livro, há entrevistas com nomes já consagrados de nossa literatura como João Ubaldo Ribeiro, Ignacio de Loyola Brandão, Milton Hatoum, Moacyr Scliar, Ruy Castro, Mário Prata, Cristóvão Tezza e Bernardo Carvalho. Mas ‘Autores e Ideias’ também se propõe a apresentar novos escritores aos seus leitores que, assim, pode se tornar também leitores de nomes como Tatiana Salem Levy, Vanessa Bárbara, Fabrício Corsaletti ou Ivana Arruda Leite, entre outros.

Thales Guaracy, diretor editorial da editora pela qual o livro foi lançado, conta que sempre teve vontade de divulgar melhor a literatura brasileira. “Como editor, tive a ideia de fazer um livro para ajudar os autores brasileiros contemporâneos e a Mona [Dorf] já vinha fazendo esse trabalho de entrevistar os autores na rádio. Usamos esse material como base para elaborar melhor as ideias”, revela Guaracy.

Para Dorf, este livro é “uma forma de conhecer um pouco da literatura brasileira. E você certamente vai descobrir um autor bacana e vai ficar com vontade de ler alguma obra dele”, convida. Guaracy reitera a opinião da autora e complementa: “Acho que os leitores terão uma referência para encontrar autores brasileiros de que eles também gostem muito.”

Texto escrito e publicado hoje no Portal da RedeTV.

Arthur Veríssimo lança ‘Karma Pop’

O jornalista e apresentador do Manhã Maior Arthur Veríssimo lançou nesta quinta (30) em São Paulo seu primeiro livro, ‘Karma Pop’, que conta histórias e traz uma seleção de fotos tiradas por Veríssimo em 17 viagens pela feitas pela Índia ao longo de 20 anos. O grande interesse do jornalista eram as festas religiosas, as cores e a cultura do povo indiano.

Veríssimo afirma que, no livro, procurou fazer uma síntese do que viu nessas 17 viagens. “As cores borbulham por todos os cantos da Índia”, diz, explicando que, seja na rua, seja nas roupas dos monjes e sacerdotes, “os matizes do nascer do sol marcam o colorido do país”.

Em sua maioria imagético, ‘Karma Pop’ teve curadoria do fotógrafo Ruy Mendes, que selecionou quais fotos entrariam no livro. “Ele passou mais de um ano debruçado sobre meus arquivos, pesquisando entre as mais de 35 mil fotos que eu tenho da Índia”, conta Veríssimo. O trabalho de Mendes foi ainda mais difícil pois nem todas as fotos são digitais, revela Veríssimo, “nós buscamos e selecionamos negativos e cromos, foi um processo trabalhoso e demorado”.

Entre as pessoas que ele conheceu na Índia, ele destaca a sabadoria que ouviu de um sábio. “Quando cheguei há 5 mil metros de altitude, no Himalaia, depois da nascente do Rio Ganges, conheci um homem que acredito tinha mais de 150 anos, um verdadeiro sábio, que me passou muitos ensinamentos.”

Em ‘Karma Pop’ há também a foto de um homem que está há mais de 30 anos com o braço levantado. A história impressiona os leitores do livro, como a apresentadora Eliana, dona da editora que lançou o livro de Veríssimo e que prestigiou o lançamento: “são histórias impressionantes, eu que nunca estive na Índia me senti lá, é tudo muito rico e colorido”, disse ao RedeTVi.

O interesse pelo país retratado em ‘Karma Pop’ surgiu desde pequeno. Verissímo conta que sua mãe era professora de yoga e seu pai sempre teve uma vasta e inspiradora biblioteca. Com as viagens, ele aprendeu a ter humildade, respeitar os protocolos, os seres humanos e ter muita versatilidade, segundo define: “E são esses ensinamentos que procuro passar para os leitores, abrir a consciência e os horizontes dos brasileiros para o sagrado e o profano na Índia.”

Matéria escrita e publicada sexta-feira (01) no Portal da RedeTV.

Futuro do livro em jogo?

Um dos grandes destaques da Bienal do Livro de São Paulo este ano são os livros digitais. Por todo lado, estandes anunciam novidades tecnológicas que vão de livros interativos para crianças a uma versão digital da Bíblia, passando pelos ebook que são apenas livros em formato eletrônico.

Karine Pansa, diretora da Câmara Brasileira do Livro (CBL), organização responsável pela realização da Bienal do Livro de São Paulo, acredita que o livro digital é uma realidade: “Ele existe, não vai desaparecer e nem vai substituir o livro em formato tradicional, ou pelo menos não a curto prazo.” Segundo ela, a opinião da CBL e de muitos especialistas no assunto é de que os dois formatos ainda devem coexistir por algum tempo. “É difícil fazer previsões para o futuro hoje em dia, as coisas mudam muito rápido”, completou Pansa.

Em abril deste ano, foi lançado no Brasil o livro ‘_não contem com o fim do livro’ (assim mesmo, em minúscula e com um underline), um diálogo de alto nível entre os especialistas e colecionadores de raridades do mercado editorial Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, mediada pelo jornalista Jean-Philippe de Tonnac. Em tom de conversa, os estudiosos, com muitos anos de leituras nas costas (Eco está com 78 anos e Carrière tem 79), acreditam que nada supera a força dos livros de papel, que não se perdem em meio aos avanços tecnológicos.

“Ainda somos capazes de ler um texto impresso há cinco séculos. Mas somos incapazes de ler , não podemos mais ver, um cassete eletrônico ou um CD-ROM com apenas poucos anos de idade. A menos que guardemos nossos velhos computadores em nossos porões.”, argumenta Carrière [que de fato guarda seus velhos computadores no porão de sua casa] no capítulo do livro intitulado “Nada mais efêmero do que os suportes duráveis”. Pansa discorda de tal argumento: “Acredito que hoje em dia as pessoas já estão preocupadas em adaptar os formatos anteriores para os novos”, disse, comentando o medo que Eco e Carrière têm de que todo o conhecimento da humanidade, geralmente armazenado em livros impressos, se perca.

Durante a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano, o historiador Robert Darnton, responsável pela digitalização do acervo da biblioteca de Harvard, disse que prevê um futuro empolgante para a edição dos livros, que devem se renovar com a possibilidade oferecida pelo formato digital de se tornarem interatvos e mutimídia. Com isso, o número de leitores pode aumentar, uma vez que as crianças seriam atraídas por vídeos e links para a leitura dos textos. Karine Pansa também vê o futuro com bons olhos: “Se os livros em formato digital forem mais atrentes que o papel, a quantidade de leitores deve aumentar. Mas se for apenas o texto digitalizado, não muda nada.”

A discussão circula em torno desta atualização e de formas inovadoras para atrair e formar leitores na sociedade da imagem. É preciso, então, estimular o amor pelos livros (já existente naqueles que temem por seu fim). Para Pansa, a melhor forma de atrair novos leitores é oferecendo conteúdos que lhes falem diretamente: “As crianças de hoje já nasceram no mundo digital. A vontade de ler vai apenas passar para o formato digital. O mundo está mais moderno, mais adaptável.”

Matéria escrita e publicada sexta-feira (20) no Portal da RedeTV.

FLIP: Especialistas acreditam que futuro do livro é empolgante

Na segunda mesa da FLIP a discutir a história dos livros, o historiador Robert Darnton, responsável pela digitalização do acervo da biblioteca de Harvard, e John Makinson, CEO da Editora Penguin, pioneira no mercado de livros digitais, falaram sobre o futuro do livro e as adaptações pelas quais deve passar para sobreviver.

Retomando a discussão iniciada ontem com o historiador Peter Burke, Darnton voltou a defender que o livro precisa se adaptar se quisermos preservar a prática da leitura, defendida por todos, para além da plataforma em que se encontre o conteúdo lido.

A mesa anterior buscou discutir o começo do livro, os exemplares raros e as subversões realizada pela sociedade na literatura. Desta vez, a conversa girou em torno das previsões feitas pelos dois especialistas para este item tão precioso ao público da FLIP. Nenhum dos dois acredita no fim do livro como forma de transmissão de conhecimento, mas, da forma como o conhecemos hoje, talvez ele já não exista em alguns anos.

Makinson acredita que com os livros digitais, os chamados e-books, é possível enriquecer o conteúdo oferecido aos leitores. “Em um e-book de história da segunda guerra mundial, por exemplo, é possível inserir trechos de documentários sobre o tema que dão ao leitor uma visão mais ampla do assunto. Coisas que não são possíveis no livro impresso.” Darnton completa o pensamento do colega de mesa: “o futuro da edição empolgante!”

Matéria escrita e publicada sexta-feira (06) no Portal da RedeTV.

Como organizar sua biblioteca pessoal

Tão importante quanto o posicionamento ideal da estante em relação à casa, é a forma como você organiza sua estante. De que adianta ter livros limpos, se você nunca acha aquele que busca? A dica, para quando você tiver um [bom] tempo livre, é catalogar seus livros por assunto, assim você não precisa necessariamente saber qual o nome ou o autor daquele livro que você procura, basta saber do que ele trata.

Júlio Penteado, vice-presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos, tem um biblioteca relativamente pequena, mas bastante especializada e muito bem cuidada. Apaixonado por carros, a paixão não fica de fora quando Penteado vai às livrarias. Ele tem de 100 a 120 livros sobre automóveis novos, antigos, inovações e todo tipo de informações relacionadas, fora uma acervo de revistas encadernadas: em sua estante, pode-se encontrar todas as edições de várias revistas especializadas. E tudo isso muito bem organizado. “As revistas estão por data de publicação e os livros mais ou menos por assunto”, conta.

Mas, no intuito de manter seus livros por mais tempo, arrumação e estante ideal podem ser inúteis se você molhar as pontas dos dedos para virar as páginas, por exemplo. O coordenador de preservação da Biblioteca Nacional, Jayme Spinelli, é categórico: se um livro por ventura for atingido por água, “não o exponha ao sol, isso acarreta a descoloração do mesmo e o ressecamento do papel. Se um livro molhar, procure secá-lo com o auxílio de um ventilador, que, com movimentos circulares na frente do mesmo semi aberto, acarretará sua secagem.”

Para uma melhor organização e preservação dos livros na estante, Spinelli diz que é importante não compactar os livros nas prateleiras: “uma certa folga entre eles é recomendável.” Se a sua estante não for fechada nas laterais, utilize bibliocantos para que os livros não fiquem despencando da estante.

Penteado observa essa dica categoricamente. “É importante não forçar as prateleiras, pois, com o tempo, os livros acabam grudando.” Na limpeza, ele usa um pano seco e procura limpar os livros pelo menos três vezes ao ano, “o ar de São Paulo é muito poluída”, desabafa.

Para limpeza, Spinelli recomenda o uso do aspirador de pó nos livros e nas prateleiras. Também é importante evitar comer próximo aos livros, pois isso atrai insetos e impurezas. E para evitar danos com o simples fato dos livros saírem da estante, retire-os segurando pela lombada e não puxando-os pela cabeça. Seguindo as dicas usadas na Biblioteca Nacional, você ainda poderá se deleitar com seus preciosos por muito tempo!

Esta matéria começa AQUIComo cuidar bem de sua biblioteca pessoal.

Texto escrito entre fevereiro e maio de 2010 para o Portal Vital, da Unilever. A versão editada está disponível no site, cujo acesso é restrito a usuários cadastrados. Atribui uma data aleatória para a publicação do texto aqui no blog, apenas para mantê-lo como registro.

Agonia de uma mulher oprimida

Posted on 2/novembro/2008 by Cinéfilos1 comentário

Após um grande desfile de patrocinadores, as ondas de alguma praia no Rio Grande do Sul iniciam os longos créditos de Dias e Noites, novo filme de Beto Souza, produzido e estrelado por Naura Schneider. Se o começo do longa é cansativo e os 80 minutos de ação não são tão dinâmicos, a história de Clotilde (Naura Schneider) se repete em seus dramas com os homens e a sociedade em que vive.

Baseado no livro Clô & Dias e Noites, de Sergio Jockyman (que por sua vez é baseado em uma história real), o filme conta a trajetória desta forte mulher durante 30 anos de sua vida, de 1957 até o final da década de 70. Obrigada pelos pais a se casar com Pedro Ramão (Antonio Calloni), um rico fazendeiro que esconde suas grosserias por trás de sua elevada posição social, Clô vive um casamento que se arrasta por incontáveis agressões físicas e morais.

Na trama, o desejo de Pedro por um filho homem faz com que leve a senhora Firmina (Irene Brietzke) para sua casa. Ela aplicará supersticiosas regras à vida de Clotilde para que dê a luz a um menino. Após o nascimento de Joana (Natalia Hizajim, quando menina e Nathalia Schneider, já adulta), primeira filha do casal, a vida da protagonista torna-se mais difícil e rígida, sendo submetida à presença constante e opressora de Firmina, atenta aos movimentos da moça e informando-os ao patrão.

Em meio à rigidez mítica de Firmina, a crise entre o casal se agrava e o temperamento de Pedro vai ficando cada vez mais difícil e violento. Após dar a luz ao tão desejado filho homem, Clotilde sai de casa, distanciando-se do marido e dos filhos, pelo amor dos quais lutará por toda sua vida.

O forte deste filme é a reflexão que provoca sobre a violência domestica e a opressão às mulheres. Clô é tratada pelos homens durante toda sua vida como um objeto e mercadoria. Aos amantes, entrega-se por paixão ou por dinheiro, não percebendo os interesses que alguns deles têm por trás disso. À mãe e à avó diz que com elas só aprendeu a ser esposa e não sabe viver de outro jeito.

Este filme reflete ainda sobre o contexto político e social da época e a forma como a ditadura militar influenciou a vida das pessoas. Do irmão comunista (Rafael Sieg) de Clotilde ao rico senhor (José de Abreu) que precisa exibir uma bela amante na sociedade, cria-se um retrato de época que nos permite perceber que quase nada mudou nos últimos 20 e poucos anos.

Apesar dos fatores louváveis, o filme é um pouco comum e não ultrapassa algumas barreiras reflexivas que poderiam torná-lo melhor. A trilha sonora é um pouco exagerada, mas ajuda a criar tensões em vários pontos. O charme da narração em primeira pessoa, em que Clotilde nos conta sua história, perde sua graça em alguns pontos, mas tem seus momentos de brilho com frases que revelam um pouco mais do pensamento e mentalidades da época. “Me tornei mercadoria. Não poderia voltar para o homem que me vendeu. Resolvi ficar com o que havia me comprado.”

Republicado neste blog em 14/06/2011 – atribui uma data aleatória apenas para manter o texto aqui como registro, já que este blog ainda não existia na data de publicação do texto acima. O site Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP, agora está hospedado no http://cinefilos.jornalismojunior.com.br/.

“Serei eu apenas uma laranja mecânica?”

Posted on 13/outubro/2008 by Cinéfilos8 comentários

Uma boa música e um belo olho azul maquiado de forma peculiar com lápis preto. O close se vai e quatro jovens aparecem em um ambiente que, no mínimo, poderíamos chamar de excêntrico. Assim começa o filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), talvez a mais famosa produção de Stanley Kubrick.

Adaptação do livro homônimo do escritor britânico Anthony Burgess, o filme manteve a tensão e a agonia que o livro nos passa, acrescentando a estes uma trilha sonora perturbadora, cores marcantes e boas interpretações.

O livro é dividido em três partes com sete capítulos cada: a primeira retrata as violentas ações de Alex e seus draguis em uma sociedade corrompida pela violência juvenil; a segunda mostra a prisão e o Tratamento Ludovico, uma nova técnica de repressão à violência, ao qual o jovem Alex é submetido na cadeia. A terceira parte nos mostra os resultados do tratamento sobre a vida do rapaz já liberto, privado de suas escolhas individuais e o caminho que ele tomará dali para frente.

O roteiro do filme foi produzido em cima da tradução norte americana para o romance de Burgess: mal feita, esta versão do livro cortou o último capítulo, em uma decisão arbitrária que o considerou “destoante” do resto do livro. A divisão do livro é clara e fundamentada em cima da tradição britânica de que a maturidade é atingida aos 21 anos. Deste modo, Alex, no 21º capítulo, se liberta dos vícios de sua juventude para se tornar um adulto que faz escolhas livres, conscientes e responsáveis. E foi o toque de classe que faltou ao filme de Kubrick.

Para quem conhece apenas o filme, o final diferente do livro pode ser uma surpresa, especialmente se você pensou a cena final como um retorno às barbaridades do começo da saga. Há quem considere, no entanto, que o ato sexual em público é, para Alex, uma forma que faz com ele se sinta aceito e redimido por uma sociedade que já não o censura mais. Neste caso, os finais não são tão destoantes assim, mas falta o toque de classe que transforma o jovem delinqüente em um verdadeiro lorde inglês: educado, com um bom emprego e um gosto musical refinado.

O livro faz parte do que se poderia chamar a “Trindade distópica” da literatura inglesa composta por 1984 (George Orwell), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley) e Laranja Mecânica (Burgess). Os três livros mostram a seus leitores um futuro catastrófico e, em muitas partes, plausível. Distopia é um processo de construção literária oposto à utopia: constrói-se um mundo no qual não se quer viver, um mundo que habita seus pesadelos e no qual você não quer acordar.

Frutos da sociedade em que seus autores viveram, os três livros nos mostram o que poderia ser de nós hoje: o primeiro deles, Admirável Mundo Novo é de 1932 e traz os reflexos da Primeira Guerra Mundial, da crise econômica de 1929 e das crises morais e religiosas por que passava a sociedade de então. 1984, escrito em 1949, carrega consigo os terríveis efeitos da Segunda Guerra e da ascensão do comunismo. Laranja Mecânica, o último da trindade na ordem cronológica, foi escrito em 1962 e, se fossemos escolher inspiradores para a obra, seriam a Guerra Fria, as transformações morais por que o mundo passava e os muitos valores que caíram durante os anos de 1950-60.

No cinema, os três livros ganharam adaptações, sendo que a única brilhante, ironicamente, foi a do livro menos notável e famoso. Dos três, Laranja é o livro menos inspirado, menos “genial”, por assim dizer, e seu filme é o melhor de todos. Juntou-se Kubrick à um bom roteiro: eis um clássico. Quanto aos outros dois filmes, nenhum brilho aparente os abençoou e foram subjugados a simples adaptações de clássicos literários para o cinema. O fato do livro de Burgess não ser tão conhecido quanto os outros dois também colaborou em muito para a celebração do titulo Laranja Mecânica como sendo “o filme de Stanley Kubrick”.

A quem foi apresentado primeiro ao livro, falta a Kubrick o carisma e a simpatia que o jovem Alex nos passa, falta a pena que o sofrimento dele nos causa no livro e, acima de tudo, falta a redenção final. Quem assiste ao filme depois de ter lido Burgess sente falta do desfecho e pensa que Kubrick voltou Alex às suas origens animais e nem sequer lança uma interpretação positiva sobre o final do filme.

Livro e filme são fantásticos. A sensação geral de ambos foi muito bem contada e Kubrick soube conferir sua genialidade nas telas à obra de Burgess munido de um bom elenco e uma cuidadosa escolha da trilha sonora. Malcolm McDowell é fantástico em sua interpretação de Alex, que no livro não passa de um garoto. Além disso, desafio qualquer espectador de Laranja Mecânica a voltar a ouvir Singing in the rain apenas como uma bela música de Frank Sinatra, sem chutes ao fundo.

Como em toda adaptação – e apesar dos 138 minutos do filme – muitas cenas foram cortadas do roteiro e algumas ordens foram invertidas. O velho mengido irlandês do começo do filme, por exemplo, é, no livro, um professor que tem seus livros rasgados e depois bate em Alex com seus colegas leitores quando ele visita uma biblioteca pública ao sair da prisão.

No entanto, a cena que mais faz falta aos leitores é o momento em que o título do livro se esclarece, fato este que em momento algum ocorre no filme. Quando agridem o escritor e sua esposa, Alex e sua gangue destroem o livro que este escrevia. Chamava-se Laranja Mecânica. Quando retorna ao “lar” ferido, a leitura de alguns trechos filosófico-reflexivos do livro causa uma terrível sensação em Alex e o faz sentir-se mal por seus atos. Aqui poderíamos encontrar o início da nova vida do garoto e encontrá-lo, no futuro, pacífico e enquadrado nos moldes de um sistema que conseguiu reprimir a violência pela ausência de nossa característica mais humana, o livre arbítrio.

Republicado neste blog em 14/06/2011 – atribui uma data aleatória apenas para manter o texto aqui como registro, já que este blog ainda não existia na data de publicação do texto acima. O site Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP, agora está hospedado no http://cinefilos.jornalismojunior.com.br/.