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Para começar o ano bem

Neste 1º de janeiro, chegam aos cinemas dois ótimos filmes: “Fora da Lei” e “O primeiro que disse”.

“Fora da Lei”

Um drama com aparência de filme de gângster, retrata a trajetória de três irmãos argelinos e de sua mãe, é um filme tenso, pesado e triste. E sua tristeza aumenta ainda mais por se passar na época das lutas de independência da Argélia.

Os conflitos entre França e Argélia marcaram a vida de Saïd (Jamel Debbouze), Messaoud (Roschdy Zem) e Abdelkader (Sami Bouajila) e de sua mãe, uma personagem forte e sem nome, que poderia representar todas as mães com filhos envolvidos nas situações por que passam os três irmãos.

Messaoud luta pela França na Indochina, Abdelkader é preso por participar de uma passeata pela libertação de seu país e Saïd, o irmão mais novo e que tenta se manter distante em seus negócios ilíciitos com cabarés e lutas de boxe, vê seus irmãos e até mesmo os negócios afetados. Depois que a família se muda para a França, os dois irmãos mais velhos se envolvem na luta armada pela independência da Argélia e o filme, de drama familiar, passa a retratar a violência e os excessos de ambos os lados da disputa colonialista. A presença feminina, em especial os olhares tristes da mãe, agravam ainda mais a tristeza do que se vê na tela.

“Fora da Lei” é uma produção franco-argelina, retrata a violência e os excessos de ambos os lados da disputa do meio dos anos 1930 até a independência da Argélia em 1962. O longa causou grande polêmica na França e sua exibição no Festival de Cannes teve até a segurança reforçada, por medo de sabotagens.

“O primeiro que disse”

Depois de um filme tenso, a outra estreia deste começo de ano pode ajudar a descontrair. Gostaria de escrever sobre o filme “O primeiro que disse” (Mine Vaganti) sem estragar a surpresa que me causou. Infelizmente, é impossível comentá-lo sem revelar alguns detalhes (ver um bom filme sem saber do que se trata é uma experiência artística que desejo a todos!). Esta comédia italiana retrata dois irmãos gays envolvidos em um dilema: seguir com suas vidas ou assumir os negócios da família conservadora e ficar vivendo na pequena cidade em que seus pais vivem.

Antonio, o primeiro que fala, como revela o título, é o que se dá melhor. Encurralado, seu irmão Tomasso (Riccardo Scamarcio), que tinha intenção de contar antes, se vê distante de seu namorado e da vida que deixou em Roma. Ele vai ficando na bela e pequena Lecce, faz amizade com a filha do sócio de seu pai e até se diverte um pouco, mas está infeliz.

Está é a primeira metade do filme: a família, a tristeza e a amizade com a bela Alba (Nicole Grimaudo). Então, os amigos de Tomasso (e seu namorado) decidem visitá-lo em Lecce. E aqui o filme se assume, como se ele próprio saísse do armário: os três amigos tentam esconder uma divertida afetação e Mateo, o namorado deixado em Roma, é discreto e charmoso.

Marcante na trilha sonora, a música “50 mile”, de Nina Zille, que o protagonista dança em frente ao espelho logo no começo do filme, já anuncia o que o espectador verá na cena em que os cinco amigos e Alba, perfeitamente integrada, dançam “Sorry, I’m a Lady”, de Baccara, na praia. Genial!

Outro destaque do filme é a matriarca da família, a nona de Tomasso: a atriz Ilaria Occhini interpreta uma senhora diabética, viciada em doces, e com um passado que a persegue, um detalhe sempre presente no filme. Compreensiva, ela é a única que sempre soube que seus dois netos eram gays, embora ninguém mais suspeitasse. Ela sabe que não se pode fugir do passado, das escolhas e mentiras que deixamos para trás. Talvez seja a “nona” (curiosamente sem nome) o grande eixo motor do longa: ela é o porto seguro dos netos, faz a alegria e tristeza da família e serve como elemento conciliador.

“O primeiro que disse” é leve e divertido, sem deixar de fora a reflexão sobre o preconceito, os tabus familiares, os desafios encontrados pela população homossexual em comunidades fechadas e conservadoras, e as escolhas sem volta que tomamos na vida.

Detalhes:

“Fora da Lei”
Título: Hors-la-loi (sítio oficial)
País: França, Argélia, Bélgica e Tunísia.
Diretor: Rachid Bouchareb
Fotografia: Christophe Beaucarne
Trilha Sonora:  Armand Amar
Ano: 2010

O primeiro que disse
Título original: Mine Vaganti (sítio oficial)
País: Itália.
Diretor: Ferzan Ozpetek
Fotografia: Maurizio Calvesi
Trilha Sonora:  Pasquale Catalano
Ano: 2010

Texto escrito e publicado dia 1º no Vereda Estreita.

Artista francesa questiona relação do homem com o tempo

A artista francesa Nathalie Decoster, com uma exposição individual em cartaz no MuBE, busca com suas obras – repletas de homens pernudos – fazer seus espectadores refletirem sobre sua relação com o tempo e o espaço em que vivem.

A artista conversou com o RedeTVi, em um passeio pela exposição, e explicou que as fíguras antropomórficas que cria (pequenos homens com longas pernas) são um reflexo do próprio ser humano. “Meu trabalho fala do homem que está muito fechado, duro. Os homens dentro da roda representam o tempo de vida da pessoa, enquanto ela anda por aí”, explica, em referência ao símbolo de seu trabalho (foto).

Nathalie conta que, apesar de preferir o círculo, também usa outras formas geométricas, ainda que com a mesma função. “A estrutura quadrada, por exemplo, é uma proteção: ela mostra que o homem é frágil. A vida tem momentos difíceis. A vida é frágil e cada um está só: a proteção é utópica.”

Ao explicar o funcionamento de sua obra ‘A Árvore’, que retrata pequenos homens pendurados em uma grande, porém fina árvore de metal, ela explica que, como na natureza, o trabalho é frágil e se move com o vento. “É uma parte do meu trabalho em que eu faço uma comparação entre a vida da natureza e a vida do homem. Os homens da obra são como folhas  que se movem com o vento e vão deixando suas marcas por onde passam”, diz, ao mesmo tempo, complementa, a obra busca conscientizar para a importância de respeitar a vida dos dois lados.

Em sua maior parte, as obras de Nathalie, que se explica em um português espanholado e misturado com palavras francesas, querem que o espectador pare e reflita sobre a maneira como encara o mundo em que vive. “Falo de coisas que o homem realizou, mas também da emoção, das pessoas que são importantes nas nossas vidas. Esse homem [pernudo] anda por aí para entregar essa mensagem ao público.”

Serviço:
Onde:
Museu Brasileiro da Escultura (MuBE). Av. Europa, 218 – São Paulo-SP
Quando: a mostra interna acaba neste final de semana. As obras expostas na parte externa ficam até 09 de janeiro de 2011
Quanto: grátis

Texto escrito e publicado hoje no Portal da RedeTV.

Cantet defende um fazer educacional apaixonado

Posted on 18/março/2009 by Cinéfilos

Após a exibição de seu novo filme em uma pré-estreia na Reserva Cultural, em São Paulo, Laurent Cantet abriu o debate com o público afirmando (e avisando) que seu Entre os Muros da Escola (Entre les Murs), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2008, não é um filme sobre educação feito para educadores, “não sou um educador”, mas sim um filme que pretende questionar as questões ligadas à educação na França, facilmente estendíveis ao resto do mundo. Sempre com a ajuda da intérprete, o diretor disse não gostar de filmes que propõem respostas, “acho importante questionar”.

O debate foi mediado pelo crítico de cinema Sérgio Rizzo e também contou com a presença da diretora Laís Bodanzky (Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade) e dos educadores Julio Groppa Aquino, docente da Faculdade de Educação da USP, e José Ernesto Bologna, consultor em Psicologia do Desenvolvimento aplicada à Administração e Educação.

Em seus primeiros comentários sobre Entre os Muros, os convidados para o debate elogiaram o diretor francês pelo ótimo trabalho realizado. Laís afirmou-se emocionada com o filme, Bolonha disse a Cantet que “gostaria que os educadores falassem de cinema como ele fala de educação”, uma vez que a escola é a primeira amarra do indivíduo para com a sociedade e o educador deve respeitar a identidade e as diferenças de cada aluno, fato este que é a todo instante retratado no longa.

Concordando com os demais, Aquino afirmou ser este um filme pioneiro, “em geral, os filmes trazem uma visão idealizada da educação. Entre os Muros é honesto, e não moralista; ele coloca o “fazer docente” em discussão, este fazer cotidiano sem grandes metanarrativas.”

O filme por seu diretor
Cantet achou importante colocar a ideia da escola como um ambiente democrático em cena: diferentes tipos convivem em um mesmo ambiente e retratar diferentes atritos que podem surgir desta convivência.

O diretor propõe no filme que se procure e incentive um lado que há muito as escolas vem deixando de lado: a criação de senso crítico nos alunos. “Vejo duas funções essenciais na escola: a primeira é ensinar noções básicas de matemática, biologia, física etc, a segunda é dar ferramentas para que o aluno possa enfrentar a sociedade em que vive, é transmitir senso crítico.”

Como pai, Cantet vê que a escola hoje não quer mais correr o risco dessa segunda função, transferindo-a exclusivamente para os pais. O que lhe agradou no livro de François Bégaudeau foi o fato de o professor tentar dar aos alunos algum senso crítico, humanizá-los ao invés de tratá-los como animais.

A discussão do amor que François coloca no que faz também é um ponto importante para o diretor. “Muitos professores e pedagogos criticam uma relação afetiva com os alunos, mas eu, que não tenho formação de pedagogo, sinto que sedução e ternura são indispensáveis para se conseguir trazer o aluno para o assunto tratado em aula.”

É preciso exercer a profissão com paixão, para que os segredos que surgem todos os dias entre os muros de uma escola não deixem o professor louco. Esta paixão, esta percepção de que mudanças são necessárias no sistema educacional moderno foi o que Laurent Cantet encontrou na história real do jovem professor François Bégaudeau, uma história sem idealizações, com erros e tropeços, palpável.

Leia mais sobre Entre os Muros da Escola AQUI.

Republicado neste blog em 14/06/2011 – atribui uma data aleatória apenas para manter o texto aqui como registro, já que este blog ainda não existia na data de publicação do texto acima. O site Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP, agora está hospedado no http://cinefilos.jornalismojunior.com.br/.

Coragem para enfrentar os próprios muros

Posted on 13/março/2009 by Cinéfilos

A frase acima simboliza bem Entre os Muros da Escola (Entre les Murs), novo longa do diretor Laurent Cantet, vencedor da Palma de Ouro 2008, a maior premiação do Festival de Cannes, dentre outras premiações. O filme é simples e sua simplicidade torna-se comovente.

Baseado na história contada pelo professor François Bégaudeau (protagonista e co-roteirista do filme) em seu livro homônimo, Entre os Muros é um filme quase documental. Sem atores profissionais, o uso de estudantes e professores “de verdade” criou um cenário emocional que nada deve a um colégio atual.

Na tela, vemos François desdobrar-se para lidar com uma turma de alunos da 7ª série de uma escola pública em Paris, cada um com uma origem étnica e influências culturais diferentes. A vida pessoal do professor e dos alunos não esta em cena, o foco da narrativa é a relação que se desenvolve entre alunos, rebeldes e muitas vezes mal-educados e os professores, igualmente humanos, com suas crises nervosas e descontroles emocionais.

O diretor Laurent Cantet conta que “quis usar pessoas que soubessem como é a realidade dentro dos muros de uma escola”, alguém que fizesse parte daquele cenário ao invés de um ator que nada entende do assunto. François interpreta ele próprio; as crianças criaram personagens baseadas em suas vivências dentro das salas de aula.

François representa todos os professores da escola em que trabalha, e também professores de todo o mundo, que todos os dias lidam com situações semelhantes às suas, fazendo o impossível para se manterem sãos e ainda valorizar e ensinar os pequenos que os cercam. Tudo isso controlando os nervos e evitando ataques.

O desafio imposto às crianças é o de superar suas próprias barreiras, conseguir pular os muros que a vida impõem a uma parcela excluída da sociedade. Para ambos, sobreviver é ser o mais humano possível e manter o olhar amoroso que vemos em François.

Republicado neste blog em 14/06/2011 – atribui uma data aleatória apenas para manter o texto aqui como registro, já que este blog ainda não existia na data de publicação do texto acima. O site Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP, agora está hospedado no http://cinefilos.jornalismojunior.com.br/.