Tag Archive | FLIP

Outras considerações sobre a FLIP 2011

Ontem, escrevi algumas impressões sobre a FLIP 2011 para o Vereda Estreita. O texto era maior e talvez estivesse um pouco confuso. Cortei e reorganizei os parágrafos, deixando algumas considerações de fora. As que sobraram e me pareceram interessantes, mantive e publico por aqui.

Eu não assisti todas as mesas da FLIP 2011, mas, ao final da festa, gostei da seleção de eventos culturais dos quais participei nos cinco dias que passei em Paraty. Nunca tinha ouvido Antonio Candido falar, tampouco tinha visto uma peça do Teatro Oficina. Comecei a FLIP fascinada com as sábias palavras de nosso maior crítico literário e terminei um pouco assustada, após receber dois convites de belas atrizes para tirar a roupa em frente das cerca de 2 mil pessoas que aguentaram as quase 4 horas da Macumba Antropófaga de Zé Celso.

Antonio Candido por Alexandre Benoit. "Um grande escritor só vai ser lido e reconhecido trinta anos depois de sua morte." (do blog da FLIP)

Na mesa de abertura da 9ª Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, Antonio Candido contou histórias de sua convivência com Oswald de Andrade, o homenageado desta edição, que era 30 anos mais velho que ele. Falando de alguma briga do poeta com críticos literários da época ou narrando o desentendimento de Oswald com o amigo Mário de Andrade, Candido finalizava as frases com um saudoso “isso era muito dele”. Na mesma mesa, o compositor e também professor da USP José Miguel Wisnik apresentou uma visão mais distanciada do poeta modernista, como ele é visto pela academia hoje e quais as influências de Oswald de Andrade em sua própria formação.

Ainda na programação principal, as mesas com Andrés Neuman, valter hugo mãe, Joe Sacco e João Ubaldo Ribeiro foram as que mais me agradaram – além de terem agradado ao público em geral, que lotou as filas de autógrafos (na FLIP, o melhor modo de medir a popularidade dos autores após as mesas das quais participam).

Os 500 exemplares que a Livraria da Vila levou para Paraty de “a máquina de fazer espanhóis”, novo romance de valter hugo mãe (que não usa maiúsculas nem em seu nome), se esgotaram ainda no sábado, um dia após a mesa do escritor. mãe passou quase 4 horas autografando livros após cativar a platéia com sua fala, onde a escrita parece natural, e com um texto lido ao final da mesa sobre sua relação com o Brasil (vídeo no post abaixo, texto AQUI). A escritora argentina Pola Oloixarac, que prometia ser a musa desta FLIP, foi ofuscada pelo carisma de valter hugo mãe, escritor português nascido em Angola (ele mora desde muito novo em Portutal).

Tive a impressão de que a programação paralela cresceu e foi mais prestigiada pelo público este ano. Na Casa de Cultura, as peças “O Outro”, com Lourenço Mutarelli, e “Tarsila”, com texto de Maria Adelaide Amaral, estavam lotadas. “Tarsila” teve tanta procura que foi até transferida para a Tenda dos Autores. Sendo que “Tarsila”, na verdade, foi uma leitura dramática da peça realizada por Eliane Giardini, José Rubens, Beth Golfman e Pascoal da Conceição, os mesmos atores que interpretaram, respectivamente, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Mário de Andrade na minissérie “Um só coração”, também de autoria de Maria Adelaide Amaral. [Aqui, insiro um parêntesis para dizer que, para mim, Pascoal da Conceição será sempre o Dr. Abobrinha.]

Eu também prestigiei o bate-papo entre Leandro SarmatzCarlos de Brito e Mello, na Casa de Cultura. A conversa entre os dois autores recebeu o nome de “Máscaras e fantasmas”. As máscaras seriam do primeiro e os fantasmas do segundo. Não há fantasmas em Mello e há apenas algumas metáforas com máscaras em Sarmatz, mas a ligação entre as obras dos dois autores vai além do título um tanto quanto forçado. Os dois falam de abandono, de solidão, de morte. Aspectos intrínsecos à vida social que são abordados com certa melancolia (melancolia esta que é mais clara em “Uma Fome”, de Sarmatz, mas está latente em “A Passagem Tensa dos Corpos”, de Mello).

O show ou o encerramento desta FLIP renderiam textos a parte. Não conhecia as composições de José Miguel Wisnik e achei-as lindas. Sobre a peça, acho que ainda não tenho palavras suficientes para comentá-la. Foi uma experiência estranha sobre a qual precisaria elaborar melhor.

Alguns link interessantes:

Entrevista do Estadão como valter hugo mãe: AQUI, em vídeo.

A Folha fez uma Sabatina com Joe Sacco que rendou uma história em quadrinhos. O Gui Dearo fez uma entrevista com ele.

Textos sobre as mesas de Péter Esterházy com Emmanuel CarrèreContardo Calligaris com Ignácio de Loyola Brandão.

Uma crônica muito simpática do Antônio Prata sobre groupies literárias: AQUI, o oficial para assinantes Folha/UOL, e AQUI, republicada por alguém.

Algumas impressões sobre a FLIP 2011

Oswald de Andrade esteve na FLIP 2011 como dificilmente outro escritor homenageado pela festa estará. Das três edições da FLIP que acompanhei, esta foi aquela em que a homenagem melhor se enraizou na programação. Oswald não foi debatido apenas na mesa de abertura ou em algumas mesas menos prestigiadas pelo público ao longo da festa. Ele esteve nas palavras de Antonio Candido na conferência inicial, mas também nas canções do show de abertura, em que José Miguel Wisnik (que também falou na primeira mesa), Celso Sim e Elza Soares cantaram adaptações feitas a partir de poemas do modernista, e também na “Macumba Antropófaga” com que Zé Celso e sua equipe do Teatro Oficina encerraram a festa.

Imagem do começo da Macumba Antropófaga que encerrou a FLIP 2011

Imagem do começo da “Macumba Antropófaga”, que encerrou a FLIP 2011.

Na programação principal, João Ubaldo Ribeiro e o escritor português nascido em Angola valter hugo mãe (que não usa maiúsculas nem em seu nome) foram os autores que mais cativaram o público. Ubaldo por suas divertidas histórias e mãe por uma fala onde a escrita parece natural (além de um texto sobre sua relação com o Brasil lido ao final da mesa, que levou boa parte do público às lágrimas). Miguel NicolelisAndrés Neuman e Joe Sacco também chamaram bastante atenção.

Ao longo desta 9ª edição da FLIP, a impressão geral do público foi de que havia menos gente em Paraty este ano. No entanto, a estimativa é de que entre 20 e 25 mil pessoas estavam por lá durante o evento, a mesma estimativa da edição de 2009. Ano passado, o público estimado foi de 15 a 20 mil pessoas (a edição 2010 aconteceu em agosto, devido à Copa do Mundo). Acredito, então, que esta impressão se deva ao fato de que o número de eventos paralelos cresceu. Se o número de pessoas que assistiam as mesas literárias do lado de fora da tenda do telão diminuiu, a Casa de Cultura estava sempre mais ou menos cheia, muitos eventos da Casa Folha e da Casa SESC lotaram.

Outro fator que pode ter contribuído para a impressão de que a cidade estava mais vazia ou de que este ano estava mais fácil atravessar a ponte do rio que cruza a cidade foi a mudança de lugar na Tenda do Telão. Em 2011, a organização da FLIP reuniu todas as suas tendas do mesmo lado do rio em que nas edições anteriores ficava apenas a Tenda dos Autores. Em um único corredor, aproveitando o passeio reformado pela prefeitura, estavam reunidas as tendas dos autores, dos autógrafos, a livraria, a loja da FLIP, os estandes dos patrocinadores e, ao final de tudo, já na praia, a tenda do telão.


A leitura feita por valter hugo mãe ao final da mesa 6 da FLIP 2011. Vídeo: Divulgação/FLIP

Foi uma FLIP com bons autores, bons mediadores (das mesas que vi, nenhum mediador estragou as conversas, como às vezes acontece), com alguma polêmica (especialmente entre o curador e o cineasta e escritor judeu Claude Lanzmann) e com algum debate. Nas mesas literárias, é difícil que os escritores convidados efetivamente dialoguem entre si, para além de algumas semelhanças propostas pelos mediadores. Neste ponto, destaco a mesa entre os escritores colombianos Laura Restrepo e Hector Abad, que não só leram as obras um do outro como trocaram impressões a respeito.

Texto escrito e publicado hoje no Vereda Estreita.

Livro: Uma Fome, Leandro Sarmatz

Ontem escrevi sobre “A Passagem Tensa dos Corpos”, primeiro romance do mineiro Carlos de Brito e Mello. Durante a FLIP, Mello estará em uma mesa na Casa de Cultura com o escritor gaúcho Leandro Sarmatz, que mora em São Paulo e é o atual editor das obras de Drummond na Companhia das Letras.

Publicado em 2010, “Uma Fome” é o primeiro livro de ficção em prosa de Sarmatz, que já havia publicado uma peça teatral (“Mães & Sogras”, 2000) e o livro de poemas “Logocausto” (2009). “Uma Fome” traz 12 contos e é dividido em suas partes. A primeira, “Atores”, tem contos curtos com personagens com a profissão. A segunda, “Abandonos”, apresenta personagens solitários, tem vários contos com marcas autobiográficas do autor e é onde estão as melhores narrativas.

O conto que dá nome ao livro é o mais marcante. Ele apresenta um escritor solitário e fracassado que conta em primeiro pessoa (e num desabafo de 26 páginas em um mesmo parágrafo) sua obsessão por se tornar um “magro total”:

Sempre tive a ambição da magreza. E magro total. Metafisicamente magro. Literariamente magro. Como Kafka, como Beckett, como Graciliano. Seco, destituído de gordurinhas extras, leve a ponto de desaparecer. Já há algum tempo que venho tentando estabelecer as ligações entre magreza e literatura. 

Também gostei bastante do conto “Schadenfreude”, que é narrado em primeira pessoa por um intelectual que se apaixona pela filha de seu orientador. O narrador oferece um olhar interessante sobre as reviravoltas e brigas provocadas em sua vida pela moça, enquanto cria teorias interessantes sobre aspectos comuns do dia a dia (em certo momento, ele divaga sobre porque tanta gente anda com garrafas d’água pela rua, por exemplo).

O livro como um todo faz várias referências literárias e ao ofício do escritor. A cultura judaica é outra marca forte. Os 12 contos tem personagens solitários e fica uma certa melancolia ao final da leitura.

No final de maio deste ano, “Uma Fome” entrou para a lista dos 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2011. (Em setembro, o júri intermediário irá escolher os dez finalistas e os três livros vencedores são eleitos por um júri final em novembro deste ano.)

AQUI há um trecho do primeiro conto disponível para leitura.

Livro: A Passagem Tensa dos Corpos, Carlos de Brito e Mello

Conclui meu TCC, sobre novos escritores brasileiros, e passei algum tempo sem querer voltar no assunto, mas agora que a FLIP se aproxima fiquei com vontade de escrever sobre Carlos de Brito e Mello e Leandro Sarmatz, dois autores que fazem parte do meu trabalho e estarão em uma mesa na Casa de Cultura durante a FLIP 2011 (sábado, dia 9, 15h15).

Assim, dedico um primeiro post ao livro “A Passagem Tensa dos Corpos”, de Carlos de Brito e Mello (foto), que foi possivelmente a leitura que mais me impressionou dentre os 10 livros de novos autores (1º livro de contos ou romance do escritor) que li até aqui (9 deles especialmente para o TCC). Não digo que seja meu preferido, porque seria uma escolha injusta, ao menos 5 dos 10 livros são incríveis.

Mas “A Passagem Tensa dos Corpos” tem um cuidado linguístico que impressiona positivamente. E conversando com o autor percebi que tudo fazia sentido na narrativa. Explico: o romance tem um narrador que é uma língua, nem vivo, nem morto, meio invisível, mas não onipresente, um personagem intrigante que vai se explicando ao longo da trama:

“Corro porque enuncio que corro. (…) Sou aquilo que anuncio ser, conquanto me falte consistência e certeza. Se tenho dúvida ou se me equivoco é porque a dúvida e o equívoco são também acontecimentos da linguagem.” (pág. 117)

A partir desse narrador se constroem frases quebradas, que acabam de modo estranho e outras que começam sem maiúsculas no parágrafo seguinte. Como neste caso:

“Toda palavra proferida ao redor da morte comporta, pelo menos, um fonema enlutado, e as perturbações de fala são formas pelas quais
morrer obseda a língua.” (pág. 12)

Os capítulos são curtos e, à narrativa principal, de uma família cujo pai, morto, é mantido insepulto na sala de jantar, alternam-se pequenos relatos de mortes em Minas Gerais. A “profissão” do narrador é contar falecimentos com breves detalhes pelas cidades que percorre, todas no estado de Minas Gerais, onde Carlos de Brito e Mello nasceu e vive até hoje.

Assim, quando conversei com o autor, percebi que tudo tem uma explicação: as frases quebradas, as cidades serem em Minas, ser um pai morto em uma sala de jantar…

Fora isso, que não fica claro em uma primeira leitura, o romance tem ritmo, mantem a curiosidade e, como o narrador, nós, leitores, também vamos ficando intrigados com os motivos que levam aquela mãe e filha a manterem o pai morto preso em uma cadeira na sala, dando comida para ele e ignorando sua morte. Ou o que leva o filho do casal a nunca sair de seu quarto. Não fosse estranho o suficiente, a filha ainda planeja um casamento sem noivo – e a mãe acha tudo normal.

Os primeiros capítulos do livro, em PDF, estão disponíveis AQUI.

AQUI, algumas informações reunidas sobre a programação da FLIP 2011.

Programação FLIP 2011

A FLIP 2011 divulgou no último dia 19 a programação completa de sua 9ª edição. E também da flipinhaflipzona e da Casa de Cultura.

A mesa de abertura terá a participação do crítico literário Antonio Candido. Dentre as mesas previstas, me chamaram mais atenção os nomes de Joe Sacco, Claude Lanzmann, valter hugo mãe (que não usa maiúsculas nem em seu nome), Péter Esterházy, Ignácio Loyola Brandão e João Ubaldo Ribeiro. O jornalista Edney Silvestre, que estreou na ficção em 2010 com “Se eu fechar os olhos agora”, também estará em uma das mesas (a 12, sáb 15h).

Quase no mesmo horário (15h15), Carlos de Brito e Mello e Leandro Sarmatz, autores incríveis que li e entrevistei para meu TCC, estarão em um bate-papo na Casa de Cultura.

AQUI matéria do Sabático sobre a 9ª edição e AQUI entrevista da rádio Estadão/ESPN com o novo curador da festa, Manuel da Costa Pinto.

A FLIP 2011 acontece de 6 a 10 de julho. Os ingressos para as mesas começam a ser vendidos no dia 6 de junho (Tenda dos Autores: R$40, Tenda do Telão: R$10 – estudantes pagam meia).

28/06/2011

Em tempo: Antonio Tabucchi cancelou sua participação na FLIP. A mesa com o italiano será substituída pelo debate “Ficções da crônica”, com Ignácio Loyola Brandão e Contardo Calligaris. Como nunca li nada sobre o primeiro italiano em questão, mas adoro as colunas do segundo, gostei da mudança!

FLIP 2011 será entre os dias 6 e 10 de julho

A próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) já tem data marcada. A 9ª edição da FLIP vai acontecer entre os dias 6 e 10 de julho de 2011, com a estreia de Manuel da Costa Pinto na curadoria do evento.

Em nota divulgada nesta quinta-feira (02) à imprensa, Mauro Munhoz, diretor-presidente da Associação Casa Azul, responsável pela organização do evento, disse que a associação já está trabalhando na FLIP 2011: “Sempre no intuito de manter a qualidade do evento que já conquistou a agenda literária mundial.”

A edição de 2010 aconteceu em agosto devido à Copa do Mundo, mas para o próximo ano já voltará para julho, mês em que tradicionalmente se realiza.

Nota escrita e publicada quinta-feira (02) no Portal da RedeTV.

FLIP anuncia novo curador para 2011

A FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) anunciou nesta quarta-feira (20) que terá um novo curador para sua edição em 2011. O novo curador será o jornalista Manuel da Costa Pinto, ele substitui o também jornalista Flávio Moura, que esteve à frente da curadoria do evento entre 2008 e 2010.

Manuel da Costa Pinto é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e foi um dos criadores da Revista Cult, além de já ter publicado diversos livros sobre literatura. O jornalista também foi mediador da mesa entre Alessandro Baricco e Contardo Calligaris, realizada na sexta edição da FLIP, em 2008.

Na nota divulgada pela organização do evento, Mauro Munhoz, diretor-presidente da Associação Casa Azul, organização responsável pela FLIP, comenta que Manuel é “um dos jornalistas mais reconhecidos por sua dedicação à literatura e irá desenvolver um belo trabalho à frente da programação da FLIP, inovando e mantendo a excelência dos anos anteriores”.

O antigo curador, Flávio Moura, permanecerá na FLIP, mas agora como responsável pelos projetos especiais do evento, como publicação de livros e DVDs. Moura afirmou, na mesma nota, que “é uma honra” ser sucedido por um profissional que é “referência para quem trabalha com literatura no Brasil”.

A edição da FLIP 2011 ainda não tem data definida, mas o novo curador já anunciou que pretende dar continuidade aos resultados que garantiram às últimas edições um público estimado em mais de 20 mil pessoas. “A FLIP transformou a cena literária brasileira, criando uma nova modalidade de interação entre escritores e leitores”, disse.

Nota escrita e publicada hoje no Portal da RedeTV.

FLIP: Moser e Zilly discutem papel da literatura brasileira no exterior

Na última mesa dedicada a discussões da FLIP 2010, americano Benjamin Moser e o alemão Berthold Zilly (foto) debateram o papel da literatura brasileira e sua penetração no exterior. Ambos tem uma relação muito forte com o Brasil, falam um português fluente e acreditam que o Brasil precisa se divulgar melhor.

Moser, biógrafo de Clarisse Lispector, acredita que a melhor forma de fazer com que um estrangeiro se interesse pelo nosso país é trazê-lo para cá. “O Brasil é um país muito fácil de se gostar, tem muita coisa atraente. Quem vem aqui sempre gosta!”, explica o americano que se interessou por nosso país ao ler ‘A Hora da Estrela’ [de Clarisse Lispector].

O encanto para Zilly veio com ‘Os Sertões’ [de Guimarães Rosa], em 1968. Hoje ele leciona no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim e afirma que a literatura tem um importante papel na construção da imagem de nosso país no exterior. “A literatura não deve ser funcional, mas ela tem condições de desconstruir a imagem negativa que o Brasil tem lá fora.”

Tendo tido acesso a grandes obras de nossa literatura, o mediador Claudiney Ferreira lembra que muitos estrangeiros conhecem apenas nomes como o de Paulo Coelho, muito mal visto por nossa crítica literária. Falando do autor, Moser disse que os brasileiros não precisam ter vergonha por ele ser brasileiro. “Ele é o segundo autor mais lido no mundo, e é lido no exterior como qualquer outro autor de ficção. Se nós [os norte-americanos] tivéssemos vergonha de toda a merda cultural que a gente esporta…”, falou, divertindo a plateia e deixando uma reflexão no ar.

Zilly destacou que a literatura brasileira se distingue pela grande riqueza de culturas: “O Brasil tem em si uma mistura de países, índios, italianos, japoneses… É um país muito rico. A oralidade também é muito presente na literatura brasileira e isso traz uma riqueza fantástica.” Apaixonado pela nossa língua, o alemão comentou que o português é uma língua maravilhosa “porque te dá carinho! É uma língua que te acolhe, ela é gostosa de falar.”

Fechando um dia inspirado nas palestras e mediadores, Moser e Zilly só fizeram elogios à nossa literatura e criticaram a imagem que o nosso país vende de si mesma. “O Brasil não é só futebol, carnaval e belas mulheres”, destacou Zilly.

Matéria escrita e publicada domingo (08) no Portal da RedeTV durante a cobertura da FLIP 2010.

FLIP: Carola Saavedra e Wendy Guerra querem romper com o siêncio do mundo

Foi nervosa que a chilena naturalizada brasileira Carola Saavedra iniciou neste domingo (08) sua participação em uma das últimas mesas da FLIP. Dividindo o palco com a cubana Wendy Guerra, Carola leu um trecho de seu novo livro, ‘Paisagem com dromedário’, e agradeceu a possibilidade de estar em uma cidade que, ao te obrigar a caminhar atentamente pelo calçamento de pedras, te faz pensar e refletir sobre o ambiente que te cerca.
Em uma mesa intitulada ‘Cartas, diários e outras subversões’, Wendy Guerra contou suas experiências com a escrita de diários, prática que sustenta desde os 7 anos. Ela contou que gosta de usar diferentes tipos de material para criar suas histórias, como arquivos sonoros, obras de artes plásticas e outros recursos que, colocados no papel, enriquecem a experiência do leitor.

Carola comentou, ainda falando sobre o uso de materiais diversificados, que acredita que o papel do artista seja justamente o de perceber o que outros não viram e contar essas visões que tem de um mundo que está a mostra para quem quiser vê-lo, mas que muitos não são capazes de enxergar. “O artista deve ser aquele que consegue acessar algo novo no mundo, algo que não está óbvio”, disse.

Falando de sua obra, a brasileira disse que, muitas vezes, “o escritor quer recuperar a verdade de um mundo que já não tem verdade”. O grande tema, para ela, é o amor e sua falta, sua busca, e as razões que levam as pessoas a sempre recomeçarem, apesar das quedas amorosas. “Acredito que a incomunicabilidade presente nas relações afetivas e amorosas é uma das grandes motivações da vida humana.”

O mediador da mesa, o também escritor João Paulo Cuenca, lembrou que os livros de Wendy Guerra tem uma grande incomunicabilidade com relação ao povo cubano, que não sabe que ela é escritora, uma vez que suas obras não estão publicadas em Cuba, apenas em outros países. Ela explicou ao público que, para ser publicado em seu país, é preciso esperar uma fila de outros nomes mais conhecidos. Além disso, para a escritora, em Cuba há um muro invisível no mar, já que ninguém pode andar de barco na ilha. Muro este que, com sua arte, Wendy diz que busca romper.

Neste seu último livro, Carola tem uma personagem que vive em uma ilha, buscando se recuperar de perdas amorosas. Wendy brincou com a brasileira dizendo que poderia ser uma se suas personagens: “eu vivo em uma ilha de verdade!”, contou. Carola concordou e disse que sua personagem também é uma artista, que vive em busca da simplicidade da vida, embora precise do mundo artístico.

Matéria escrita e publicada domingo (08) no Portal da RedeTV durante a cobertura da FLIP 2010.

FLIP: Organizadores comemoram acertos da 8ª edição

Na coletiva de encerramento da FLIP 2010, os organizadores destacaram que o evento superou suas expectativas. O curador do evento, Flávio Moura, se mostrou surpreendido com o sucesso da arriscada homenagem à Gilberto Freyre.

Sobre os convidados, Moura comemorou a integração entre autores. “Ninguém sabia se a conversa entre Azar Nafisi e o A. B. Yehoshua daria certo e foi ótimo!” O curador lembrou ainda mesas que debateram entre si, como as de Rushdie e Terry Eagleton.

Sobre a participação de Robert Crumb no evento, Moura acredita que sua participação ficou muito além do esperado. “Conseguimos trazer uma lenda vida para Paraty e ele de fato falou com o público. É algo sensacional que a FLIP pode oferecer, essa integração entre autores e leitores.”

Geralmente realizada em julho, o evento mudou para agosto neste ano devido à Copa do Mundo. O público estimado de 2010 foi de 15 a 20 mil pessoas, incluindo os paratienses que participaram da Festa. Menores que os números do ano passado (estimados entre 20 e 25 mil pessoas), o organizador do evento, Mauro Munhoz, disse que a diminuição é até uma vantagem: “É muita gente para uma cidade tão pequena. Pensamos até em mudar a festa para o final de junho se acharmos que ano que vem viram muitas pessoas.”

A FLIP 2010 teve uma mesa que discutiu o papel da cidade de Paraty na formação autores e no incentivo à cultura. Munhoz ressalta que a cidade tem uma história muito grande de turismo cultural. “Aqui tem muitos artistas, pintores, atêlies. O próprio cinema novo passou por Paraty.” Uma ideia macro da FLIP e de seus parceiros, destaca Munhoz, é transformar Paraty em um pólo do turismo cultural.

Matéria escrita e publicada domingo (08) no Portal da RedeTV durante a cobertura da FLIP 2010.