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Sabor de infância

Minha família foi para o interior e fez bolachinhas de pinga. Eles trouxeram bastante para cá e elas estão deliciosas. Seguem a receita que minha avó costumava fazer quando éramos pequenos. Mas não são iguais. Não são tão gostosas. Algo lhes falta.

Quando observei que o que falta seria o sabor de infância, meu irmão me mandou o conto “Omelete de Amoras”, de Walter Benjamin, que compartilho por aqui, porque – além de fazer todo sentido neste caso e de meu desejo de guardar este link – gosto destas reflexões sobre memória e percepção.

O texto pode ser encontrado na pág. 219 de “Walter Benjamin: Obras Escolhidas II – Rua de mão única” (São Paulo, Editora Brasiliense, 1995). Está na parte “Imagens do Pensamento”. AQUI, uma versão do livro em PDF.

Sombras da Vida

Posted on 27/fevereiro/2009 by Cinéfilos

Três Macacos (Üç Maymun) é um filme de tristes  sombras, da fotografia aos personagens. As cenas escuras, com poucos focos de luz e fortes contrastes, nos mostram o que veremos ao longo de todo o filme: uma família sofrida, repleta de problemas e segredos, sempre sujeita às manipulações e peças que a vida nos prega.

Como no provérbio japonês e na imagem que comumente os representa (os três macacos sábios que nos dizem que não se deve “ver o mal”, “ouvir o mal”, “falar o mal”), os personagens principais da trama são os três macacos que não desejam se comunicar, que preferem ignorar detalhes de suas vidas, omitir informações e construir uma convivência pacífica baseada em segredos. Algo humanamente impossível. Fracassam. E suas vidas caem por terra, levando convicções e esperanças.

Ao contrário dos três macacos do provérbio, a família que compõe o eixo central deste longa não faz bem ao evitar ver e compartilhar suas aflições. Por dinheiro, Eyüp (Yavuz Bingol, o pai) assume a culpa por um acidente causado por seu chefe, Servet (Ercan Kesal), um político que está tentando se eleger. Hacer (Hatice Aslan), a mãe, e o filho do casal, Ismail (Rifat Sungar), ficam desnorteados com a ausência paterna, e acabam fazendo coisas que Eyüp não aprovaria.

A trama se desenvolve de um modo peculiar que quase se poderia dizer típico dos filmes do “lado B da Europa”. Um país pobre, com uma população arrasada tentando de tudo para sobreviver e melhorar de vida. A direção de Nuri Bilge Ceylan foi premiada no Festival de Cannes 2008.

A fotografia é o grande destaque do filme, linda do começo ao fim, nos envolve na trama. Quanto a mim, digo que gostei mais do filme por que a fotografia escura me mostrou o quão melancólica pode ser a vida. Pela fotografia, é possível solidarizar-se com a pobre família. E desejar que tenham sorte em suas buscas, que saiam da escuridão e sobrevivam às tempestades.

Republicado neste blog em 14/06/2011 – atribui uma data aleatória apenas para manter o texto aqui como registro, já que este blog ainda não existia na data de publicação do texto acima. O site Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP, agora está hospedado no http://cinefilos.jornalismojunior.com.br/.

Surpresas, só no título

Posted on 23/janeiro/2009 by Cinéfilos1 comentário

Combine filmes de Natal em família, comédias românticas açucaradas, Vince Vaughn e Reese Whiterspoon: eis Surpresas do Amor (Four Christmases), o sucesso do natal norte americano que por lá já faturou mais de US$115 milhões e passou duas semanas na liderança do ranking de bilheteria. Se olharmos para a atual situação dos EUA, fica fácil entender o porquê do sucesso de Surpresas. Em meio à crise, é normal que os norte-americanos queiram ir aos cinemas para ver algo mais leve e se afastar um pouco do quadro cotidiano.

surpresas-do-amorO filme pode ser pensado como uma mistura de Doce Lar (com Reese Whiterspoon) com Separados pelo Casamento (com Vince Vaughn). Juntamos a protagonista que quer fugir de sua família em Doce Lar com os conflitos amorosos de Separados pelo Casamento, e, claro, unimos a mocinha de um com o mocinho do outro. Até aqui, nada de novo.

Neste filme que se formou, Brad (Vince Vaughn) e Kate (Reese Whiterspoon) são um casal de namorados que procurar fugir de suas complicadas e estranhas famílias nas festas de fim de ano. Sempre viajando e inventando desculpas para não visitar os parentes.

Uma neblina que cobre a cidade de São Francisco no Natal será a grande culpada pelas desgraças do casal, que se vê forçado a enfrentar quatro natais (afinal, ambos tem pais divorciados) em um mesmo dia, não sem custos à relação ou às convicções de ambos. A narrativa nos mostra que o casal não se conhece muito bem e muita coisa faltou nas conversas dos namorados, dos pequenos segredos às vergonhas escondidas em antigos álbuns de fotografias.

surpresas-do-amor2Entender por que Brad e Kate fogem de suas famílias é fácil, poucas são as pessoas que nunca se irritaram com interferências e fofocas familiares. No entanto, a grande mensagem que esta comédia romântica passa (por que você já deve ter percebido que comédias românticas sempre passam uma mensagem bonitinha no final) é de que viver e conviver em família pode ser melhor e mais recompensador, apesar de tudo. E neste jogo amoroso, a sinceridade é a melhor tática, sempre lembrando que planos podem ser revistos.

Republicado neste blog em 14/06/2011 – atribui uma data aleatória apenas para manter o texto aqui como registro, já que este blog ainda não existia na data de publicação do texto acima. O site Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP, agora está hospedado no http://cinefilos.jornalismojunior.com.br/.

Fantasmas do passado

Posted on 23/dezembro/2008 by Cinéfilos

Um Conto de Natal (Un Conte de Noelnão é um filme leve, desses que talvez você deseje assistir no dia 25, envolto pelo espírito natalino que te deixou cheio de bons pensamentos e esperanças para o ano que se aproxima. Se o Natal tem este poder redentor, assistir a este filme com roteiro de Emmanuel Bourdieu e Arnaud Desplechin nesta quinta-feira pode lhe causar certo desconforto.

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Este é um filme como poucos: seus 150 minutos passam de forma rápida, quase imperceptível. A história é envolvente e os personagens vão se revelando aos poucos, em suas nuances e particularidades. Da fantástica Catherine Deneuve aos pequenos irmãos Thomas e Clémente Obled (Basile e Baptiste, filhos de Ivan e Sylvia (Chiara Mastroianni)), o elenco dirigido por Arnaud Desplechin atua de forma brilhante, construindo um cenário familiar às vezes desolador, às vezes esperançoso.

O enredo poderia ser a história de qualquer família normal, recheada por uma pitada de tristes coincidências. Junon (Catherine Deneuve) e Abel Vuillard (Jean-Paul Roussillon) tiveram 4 filhos. Joseph, o primogênito, morreu aos 6 anos de idade, vítima de um raro distúrbio genético onde sua única salvação seria um transplante de medula, porém, nenhum dos membros de sua família era compatível. Ficando como irmã mais velha, Elizabeth (Anne Consigny) não se entende com o irmão Henri (Mathieu Amalric), que foi concebido como última esperança de compatibilidade para salvar a vida de Joseph, mas o menino morre antes que este seja possível. Depois veio o jovem Ivan (Melvil Poupaud), que nasceu após toda a tragédia familiar, uma esperança de vida nova.

um-conto-natal2A história gira em torno de uma noite de Natal que reúne toda a família após anos de um afastamento imposto a Henri por sua irmã mais velha. O motivo de tal reunião é a doença com a qual a matriarca da família é diagnosticada: Junon tem o mesmo problema de seu primeiro filho e precisa de um transplante de medula. A família toda (inclusive os pequenos filhos de Ivan) se mobiliza para fazer os exames de compatibilidade e, no Natal, os problemas familiares serão expostos à mesa, com toda a sensibilidade própria aos filmes franceses. Os fantasmas do passado se revelam nos olhares trocados entre os personagens, no triste perambular de Elizabeth pela casa.

O Natal dos Vuillard não tem a melancolia de uma avó com a vida ameaçada, nem terríveis barracos de irmãos que se odeiam. Os ódios são tratados de forma mais seca, irônica, cínica. Os personagens, mesmo os pequenos Basile e Baptiste, compõem um quadro familiar povoado de intrigas. Seja entre irmãos, cônjuges, mãe e filho ou falando das antigas mágoas entre Ivan e seu primo Simon, a família e sua unidade são questionadas e exploradas, sem dramas emocionais, com uma frieza psicológica que sabe conter as emoções e colocar o foco deste filme na instabilidade da vida que dispensa esclarecimentos finais.

Republicado neste blog em 14/06/2011 – atribui uma data aleatória apenas para manter o texto aqui como registro, já que este blog ainda não existia na data de publicação do texto acima. O site Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP, agora está hospedado no http://cinefilos.jornalismojunior.com.br/.