Cada um com seu cinema

Gostei bastante dos curtas que compõe o filme “Cada um com seu cinema” (Chacun son cinéma/2007), realizado por ocasião dos 60 anos do Festival de Cannes. Achei interessante como alguns diretores deixam suas marcas claras, enquanto outros surpreendem fugindo delas. As reflexões podem ser superficiais, mas é um belo filme – e é divertido tentar imaginar de quem são os curtas.

Posto aqui alguns dos que estão no Youtube e tem legendas (ou estão em inglês).

Trois Minutes

Dans L’Obscurite

Não encontrei nenhuma versão do curta de Wong Kar Wai (I traveled 9000 km to give it to you) com legendas. Uma pena, foi um dos que eu mais gostei (e o texto está em chinês, então…).

Outros curtas online:
– “At the Suicide of the Last Jew in the World in the Last Cinema in the World” (em inglês);
– “War In Peace“;
– “Miguel Pereira em Cannes“;
– “World Cinema“;
– “The Electric Princess House“.

Anima Mundi 2011

Depois do longa desastroso de quinta-feira, dei sorte com os filmes que vi domingo no Anima Mundi. Estive nas sessões Curtas 3David Daniels & Carlos Saldanha.

Dos que realmente gostei nestas duas sessões, só encontrei Bomtempo na internet:

Queria ter visto também as sessões Curtas 4, Chilemonos e Pixar 25 anos. Destas, encontrei alguns curtas por aí:

Três Pequenos Pontos

Travesseiro de Plumas

O Jogo de Geri

Sabor de infância

Minha família foi para o interior e fez bolachinhas de pinga. Eles trouxeram bastante para cá e elas estão deliciosas. Seguem a receita que minha avó costumava fazer quando éramos pequenos. Mas não são iguais. Não são tão gostosas. Algo lhes falta.

Quando observei que o que falta seria o sabor de infância, meu irmão me mandou o conto “Omelete de Amoras”, de Walter Benjamin, que compartilho por aqui, porque – além de fazer todo sentido neste caso e de meu desejo de guardar este link – gosto destas reflexões sobre memória e percepção.

O texto pode ser encontrado na pág. 219 de “Walter Benjamin: Obras Escolhidas II – Rua de mão única” (São Paulo, Editora Brasiliense, 1995). Está na parte “Imagens do Pensamento”. AQUI, uma versão do livro em PDF.

3 dias, 6 filmes, 1 erro

Nos últimos três dias, assisti seis filmes. Adorei quatro deles, um deles foi simpático, mas nada demais, o outro foi um suplício, mas resisti até o final pelo ingresso pago.

Na quarta, fui à cabine de Não se preocupe, nada vai dar certo, o filme indiferente da lista. Brasileiro, simpático, numa linha tragicômica com um daqueles finais positivos que te fazem sair do cinema com um sorriso. Não é que o filme seja ruim. Não, ele é apenas normal. Ou, como disse acima e no twitter, “simpático” [que é um desses adjetivos que podem ser bem genéricos, embora talvez não devessem]. Dos pontos positivos do filme, a dupla Gregório Duvivier (“Apenas o fim“) – Tarcísio Meira funciona bem. Dos negativos, achei a personagem de Flávia Alessandra forçada (o de Tarcísio Meira também é um pouco). O filme estreia nos cinemas dia 05/08.

Depois, assisti Velvet Goldmine, que havia baixado há tempos. Gosto dos três atores principais – Jonathan Rhys Meyers (The Tudors), Ewan McGregor e Christian Bale – e adorei o filme (não só pelos atores). Os personagens de Meyers e McGregor são roqueiros fictícios do glam rock londrino dos anos 70. Já Bale é Arthur, um jornalista que vai investigar o paradeiro de Brian Slade, o personagem de Meyers. Acho que este é um desses filmes que é melhor ver sem ler sinopses. Sua narrativa é construída ao mesmo tempo em que Arthur vai descobrindo detalhes da vida do cantor por meio de entrevistas com pessoas próximas a ele. O espectador vai junto e também começa a conhecer melhor o próprio jornalista. Além dos personagens e do roteiro, visual e trilha sonora também são incríveis.

Fechei o dia com a animação “Como treinar seu dragão“, que é uma graça!! A história do Viking diferente, que não queria matar dragões, tem traços previsíveis – especialmente no começo, mas depois melhora, ainda que tudo saia como planejado. Mas nada disso estraga o encanto dos personagens. Gerard Butler duplando o Viking chefe da aldeia dá um toque a la “300“.

Aí ontem resolvi me arriscar com um filme do Anima Mundi. Gosto de ver filmes às cegas, mas ontem isso foi um erro. Desrespeitei a regra número 1 do consumo saudável de filmes às cegas: sempre olhar a sinopse por cima. Cai em uma animação japonesa para crianças, com uma dublagem terrível e sem entonação. Chama-se A Luz do Rio e, como não tenho mais 5 anos, achei o filme um tédio interminável. E ele só tinha 1h15. Resisti pelo ingresso pago (pensei em abandonar a sessão pensando que fora um ingresso barato, mas fui forte, me iludindo com possibilidades de melhora). A história é a de uma família de ratos de rio que é expulsa de sua casa na árvore devido à construção de uma hidrelétrica. A partir de então, eles precisam encontrar uma nova casa. O filme tem mensagens ecológicas, de solidariedade e amor familiar. Talvez agrade uma criança, mas a dublagem sem entonação que fizeram em português acabou com toda a poesia da animação japonesa (que tem daquelas frases de efeito orientais que dubladas perdem todo sentido).

Para compensar, hoje vi o francês Minhas tardes com Margueritte, com Gérard Depardieu e Gisèle Casadesus, um filme lindo, bem poético, sobre o poder transformador da literatura – e do amor. Tudo se dá no encontro e nas trocas entre os dois personagens solitários interpretados pelos atores acima. Emociona bastante.

Depois resolvi confundir a cabeça com Amnésia, outro que nunca tinha visto e gostei bastante. Achei interessante a trama ser desvendada de trás para frente e a fotografia ir ficando preto e branco. Ainda estou intrigada com o final, que te faz repensar todas as suas impressões sobre o personagem principal, Leonard (Guy Pearce).

Uma cidade hostil

Nasci e cresci em São Paulo; nunca morei em outro lugar. Desde cedo, minha mãe me ensinou a desconfiar dos carros. “Sempre olhe para os dois lados da rua”, enfatizava. Depois de um tempo, veio a recomendação para sempre andar com a bolsa na parte da frente do corpo, de preferência protegendo-a com a mão.

Eu costumava defender a vida por aqui e os benefícios de uma grande cidade. Cada vez mais, no entanto, me pergunto se efetivamente vale a pena. São Paulo nos ensina a entrar em filas, a achar normal passar uma hora dentro de um ônibus ou carro. Mas, acima de tudo, me parece que São Paulo nos ensina a ter medo (da violência, dos carros… Até do tempo!).

São Paulo é uma cidade hostil e que sufoca. Acho que isso resume a impressão que tem crescido em mim. Hostil em cada rua sem calçada, em cada carro buzinando ou passando no farol vermelho, no caminhar apressado [do qual sou adepta, mas do qual adoro me livrar]. E tudo isso nem sempre é pressa. Às vezes é medo de passar por determinada rua, vazia ou mal iluminada. O sufoco, por sua vez, começa nas filas e, no inverno, deixa de ser metafórico e passa a agredir nosso sistema respiratório com o tempo seco de poluição, as ilhas de calor, a inversão térmica e todas aquelas coisas às quais nos acostumamos.

Após a mesa de David Byrne na FLIP 2011, em que o debate girou em torno dos meios de transporte e de como eles interferem nos conjuntos urbanos, conversávamos entre amigos sobre esta hostilidade de São Paulo, uma cidade que não só não nos convida a passar a pé pelas ruas, como também afasta (e assusta) o pedestre. Não é fácil ser pedestre (ou sequer se locomover) por aqui. A verdade é que não é fácil viver aqui.

Sim, São Paulo tem de tudo. Muitas opções culturais, gastronômicas, tudo o que se pode imaginar, aqui tem. Mas tem também muita gente e pouca organização. Tem fila e caras fechadas para todo lado. Além de tudo, viver em São Paulo custa uma fortuna (viver bem, então…). São cerca de 11 milhões de habitantes morando na cidade (20 se contarmos a região metropolitana). Destes, no entanto, quem efetivamente vive em São Paulo?

Em tempo: na edição deste mês da Revista Piauí, a Vanessa Barbara escreveu um texto incrível sobre os “sem-carro”. Me identifiquei. [01/08]

Outras considerações sobre a FLIP 2011

Ontem, escrevi algumas impressões sobre a FLIP 2011 para o Vereda Estreita. O texto era maior e talvez estivesse um pouco confuso. Cortei e reorganizei os parágrafos, deixando algumas considerações de fora. As que sobraram e me pareceram interessantes, mantive e publico por aqui.

Eu não assisti todas as mesas da FLIP 2011, mas, ao final da festa, gostei da seleção de eventos culturais dos quais participei nos cinco dias que passei em Paraty. Nunca tinha ouvido Antonio Candido falar, tampouco tinha visto uma peça do Teatro Oficina. Comecei a FLIP fascinada com as sábias palavras de nosso maior crítico literário e terminei um pouco assustada, após receber dois convites de belas atrizes para tirar a roupa em frente das cerca de 2 mil pessoas que aguentaram as quase 4 horas da Macumba Antropófaga de Zé Celso.

Antonio Candido por Alexandre Benoit. "Um grande escritor só vai ser lido e reconhecido trinta anos depois de sua morte." (do blog da FLIP)

Na mesa de abertura da 9ª Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, Antonio Candido contou histórias de sua convivência com Oswald de Andrade, o homenageado desta edição, que era 30 anos mais velho que ele. Falando de alguma briga do poeta com críticos literários da época ou narrando o desentendimento de Oswald com o amigo Mário de Andrade, Candido finalizava as frases com um saudoso “isso era muito dele”. Na mesma mesa, o compositor e também professor da USP José Miguel Wisnik apresentou uma visão mais distanciada do poeta modernista, como ele é visto pela academia hoje e quais as influências de Oswald de Andrade em sua própria formação.

Ainda na programação principal, as mesas com Andrés Neuman, valter hugo mãe, Joe Sacco e João Ubaldo Ribeiro foram as que mais me agradaram – além de terem agradado ao público em geral, que lotou as filas de autógrafos (na FLIP, o melhor modo de medir a popularidade dos autores após as mesas das quais participam).

Os 500 exemplares que a Livraria da Vila levou para Paraty de “a máquina de fazer espanhóis”, novo romance de valter hugo mãe (que não usa maiúsculas nem em seu nome), se esgotaram ainda no sábado, um dia após a mesa do escritor. mãe passou quase 4 horas autografando livros após cativar a platéia com sua fala, onde a escrita parece natural, e com um texto lido ao final da mesa sobre sua relação com o Brasil (vídeo no post abaixo, texto AQUI). A escritora argentina Pola Oloixarac, que prometia ser a musa desta FLIP, foi ofuscada pelo carisma de valter hugo mãe, escritor português nascido em Angola (ele mora desde muito novo em Portutal).

Tive a impressão de que a programação paralela cresceu e foi mais prestigiada pelo público este ano. Na Casa de Cultura, as peças “O Outro”, com Lourenço Mutarelli, e “Tarsila”, com texto de Maria Adelaide Amaral, estavam lotadas. “Tarsila” teve tanta procura que foi até transferida para a Tenda dos Autores. Sendo que “Tarsila”, na verdade, foi uma leitura dramática da peça realizada por Eliane Giardini, José Rubens, Beth Golfman e Pascoal da Conceição, os mesmos atores que interpretaram, respectivamente, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Mário de Andrade na minissérie “Um só coração”, também de autoria de Maria Adelaide Amaral. [Aqui, insiro um parêntesis para dizer que, para mim, Pascoal da Conceição será sempre o Dr. Abobrinha.]

Eu também prestigiei o bate-papo entre Leandro SarmatzCarlos de Brito e Mello, na Casa de Cultura. A conversa entre os dois autores recebeu o nome de “Máscaras e fantasmas”. As máscaras seriam do primeiro e os fantasmas do segundo. Não há fantasmas em Mello e há apenas algumas metáforas com máscaras em Sarmatz, mas a ligação entre as obras dos dois autores vai além do título um tanto quanto forçado. Os dois falam de abandono, de solidão, de morte. Aspectos intrínsecos à vida social que são abordados com certa melancolia (melancolia esta que é mais clara em “Uma Fome”, de Sarmatz, mas está latente em “A Passagem Tensa dos Corpos”, de Mello).

O show ou o encerramento desta FLIP renderiam textos a parte. Não conhecia as composições de José Miguel Wisnik e achei-as lindas. Sobre a peça, acho que ainda não tenho palavras suficientes para comentá-la. Foi uma experiência estranha sobre a qual precisaria elaborar melhor.

Alguns link interessantes:

Entrevista do Estadão como valter hugo mãe: AQUI, em vídeo.

A Folha fez uma Sabatina com Joe Sacco que rendou uma história em quadrinhos. O Gui Dearo fez uma entrevista com ele.

Textos sobre as mesas de Péter Esterházy com Emmanuel CarrèreContardo Calligaris com Ignácio de Loyola Brandão.

Uma crônica muito simpática do Antônio Prata sobre groupies literárias: AQUI, o oficial para assinantes Folha/UOL, e AQUI, republicada por alguém.

Algumas impressões sobre a FLIP 2011

Oswald de Andrade esteve na FLIP 2011 como dificilmente outro escritor homenageado pela festa estará. Das três edições da FLIP que acompanhei, esta foi aquela em que a homenagem melhor se enraizou na programação. Oswald não foi debatido apenas na mesa de abertura ou em algumas mesas menos prestigiadas pelo público ao longo da festa. Ele esteve nas palavras de Antonio Candido na conferência inicial, mas também nas canções do show de abertura, em que José Miguel Wisnik (que também falou na primeira mesa), Celso Sim e Elza Soares cantaram adaptações feitas a partir de poemas do modernista, e também na “Macumba Antropófaga” com que Zé Celso e sua equipe do Teatro Oficina encerraram a festa.

Imagem do começo da Macumba Antropófaga que encerrou a FLIP 2011

Imagem do começo da “Macumba Antropófaga”, que encerrou a FLIP 2011.

Na programação principal, João Ubaldo Ribeiro e o escritor português nascido em Angola valter hugo mãe (que não usa maiúsculas nem em seu nome) foram os autores que mais cativaram o público. Ubaldo por suas divertidas histórias e mãe por uma fala onde a escrita parece natural (além de um texto sobre sua relação com o Brasil lido ao final da mesa, que levou boa parte do público às lágrimas). Miguel NicolelisAndrés Neuman e Joe Sacco também chamaram bastante atenção.

Ao longo desta 9ª edição da FLIP, a impressão geral do público foi de que havia menos gente em Paraty este ano. No entanto, a estimativa é de que entre 20 e 25 mil pessoas estavam por lá durante o evento, a mesma estimativa da edição de 2009. Ano passado, o público estimado foi de 15 a 20 mil pessoas (a edição 2010 aconteceu em agosto, devido à Copa do Mundo). Acredito, então, que esta impressão se deva ao fato de que o número de eventos paralelos cresceu. Se o número de pessoas que assistiam as mesas literárias do lado de fora da tenda do telão diminuiu, a Casa de Cultura estava sempre mais ou menos cheia, muitos eventos da Casa Folha e da Casa SESC lotaram.

Outro fator que pode ter contribuído para a impressão de que a cidade estava mais vazia ou de que este ano estava mais fácil atravessar a ponte do rio que cruza a cidade foi a mudança de lugar na Tenda do Telão. Em 2011, a organização da FLIP reuniu todas as suas tendas do mesmo lado do rio em que nas edições anteriores ficava apenas a Tenda dos Autores. Em um único corredor, aproveitando o passeio reformado pela prefeitura, estavam reunidas as tendas dos autores, dos autógrafos, a livraria, a loja da FLIP, os estandes dos patrocinadores e, ao final de tudo, já na praia, a tenda do telão.


A leitura feita por valter hugo mãe ao final da mesa 6 da FLIP 2011. Vídeo: Divulgação/FLIP

Foi uma FLIP com bons autores, bons mediadores (das mesas que vi, nenhum mediador estragou as conversas, como às vezes acontece), com alguma polêmica (especialmente entre o curador e o cineasta e escritor judeu Claude Lanzmann) e com algum debate. Nas mesas literárias, é difícil que os escritores convidados efetivamente dialoguem entre si, para além de algumas semelhanças propostas pelos mediadores. Neste ponto, destaco a mesa entre os escritores colombianos Laura Restrepo e Hector Abad, que não só leram as obras um do outro como trocaram impressões a respeito.

Texto escrito e publicado hoje no Vereda Estreita.

Livro: Uma Fome, Leandro Sarmatz

Ontem escrevi sobre “A Passagem Tensa dos Corpos”, primeiro romance do mineiro Carlos de Brito e Mello. Durante a FLIP, Mello estará em uma mesa na Casa de Cultura com o escritor gaúcho Leandro Sarmatz, que mora em São Paulo e é o atual editor das obras de Drummond na Companhia das Letras.

Publicado em 2010, “Uma Fome” é o primeiro livro de ficção em prosa de Sarmatz, que já havia publicado uma peça teatral (“Mães & Sogras”, 2000) e o livro de poemas “Logocausto” (2009). “Uma Fome” traz 12 contos e é dividido em suas partes. A primeira, “Atores”, tem contos curtos com personagens com a profissão. A segunda, “Abandonos”, apresenta personagens solitários, tem vários contos com marcas autobiográficas do autor e é onde estão as melhores narrativas.

O conto que dá nome ao livro é o mais marcante. Ele apresenta um escritor solitário e fracassado que conta em primeiro pessoa (e num desabafo de 26 páginas em um mesmo parágrafo) sua obsessão por se tornar um “magro total”:

Sempre tive a ambição da magreza. E magro total. Metafisicamente magro. Literariamente magro. Como Kafka, como Beckett, como Graciliano. Seco, destituído de gordurinhas extras, leve a ponto de desaparecer. Já há algum tempo que venho tentando estabelecer as ligações entre magreza e literatura. 

Também gostei bastante do conto “Schadenfreude”, que é narrado em primeira pessoa por um intelectual que se apaixona pela filha de seu orientador. O narrador oferece um olhar interessante sobre as reviravoltas e brigas provocadas em sua vida pela moça, enquanto cria teorias interessantes sobre aspectos comuns do dia a dia (em certo momento, ele divaga sobre porque tanta gente anda com garrafas d’água pela rua, por exemplo).

O livro como um todo faz várias referências literárias e ao ofício do escritor. A cultura judaica é outra marca forte. Os 12 contos tem personagens solitários e fica uma certa melancolia ao final da leitura.

No final de maio deste ano, “Uma Fome” entrou para a lista dos 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2011. (Em setembro, o júri intermediário irá escolher os dez finalistas e os três livros vencedores são eleitos por um júri final em novembro deste ano.)

AQUI há um trecho do primeiro conto disponível para leitura.

Livro: A Passagem Tensa dos Corpos, Carlos de Brito e Mello

Conclui meu TCC, sobre novos escritores brasileiros, e passei algum tempo sem querer voltar no assunto, mas agora que a FLIP se aproxima fiquei com vontade de escrever sobre Carlos de Brito e Mello e Leandro Sarmatz, dois autores que fazem parte do meu trabalho e estarão em uma mesa na Casa de Cultura durante a FLIP 2011 (sábado, dia 9, 15h15).

Assim, dedico um primeiro post ao livro “A Passagem Tensa dos Corpos”, de Carlos de Brito e Mello (foto), que foi possivelmente a leitura que mais me impressionou dentre os 10 livros de novos autores (1º livro de contos ou romance do escritor) que li até aqui (9 deles especialmente para o TCC). Não digo que seja meu preferido, porque seria uma escolha injusta, ao menos 5 dos 10 livros são incríveis.

Mas “A Passagem Tensa dos Corpos” tem um cuidado linguístico que impressiona positivamente. E conversando com o autor percebi que tudo fazia sentido na narrativa. Explico: o romance tem um narrador que é uma língua, nem vivo, nem morto, meio invisível, mas não onipresente, um personagem intrigante que vai se explicando ao longo da trama:

“Corro porque enuncio que corro. (…) Sou aquilo que anuncio ser, conquanto me falte consistência e certeza. Se tenho dúvida ou se me equivoco é porque a dúvida e o equívoco são também acontecimentos da linguagem.” (pág. 117)

A partir desse narrador se constroem frases quebradas, que acabam de modo estranho e outras que começam sem maiúsculas no parágrafo seguinte. Como neste caso:

“Toda palavra proferida ao redor da morte comporta, pelo menos, um fonema enlutado, e as perturbações de fala são formas pelas quais
morrer obseda a língua.” (pág. 12)

Os capítulos são curtos e, à narrativa principal, de uma família cujo pai, morto, é mantido insepulto na sala de jantar, alternam-se pequenos relatos de mortes em Minas Gerais. A “profissão” do narrador é contar falecimentos com breves detalhes pelas cidades que percorre, todas no estado de Minas Gerais, onde Carlos de Brito e Mello nasceu e vive até hoje.

Assim, quando conversei com o autor, percebi que tudo tem uma explicação: as frases quebradas, as cidades serem em Minas, ser um pai morto em uma sala de jantar…

Fora isso, que não fica claro em uma primeira leitura, o romance tem ritmo, mantem a curiosidade e, como o narrador, nós, leitores, também vamos ficando intrigados com os motivos que levam aquela mãe e filha a manterem o pai morto preso em uma cadeira na sala, dando comida para ele e ignorando sua morte. Ou o que leva o filho do casal a nunca sair de seu quarto. Não fosse estranho o suficiente, a filha ainda planeja um casamento sem noivo – e a mãe acha tudo normal.

Os primeiros capítulos do livro, em PDF, estão disponíveis AQUI.

AQUI, algumas informações reunidas sobre a programação da FLIP 2011.

Quem sou

Minha vida tem mudado rapidamente nos últimos anos/meses. Hoje, sou uma soma das alegrias dos primeiros anos de faculdade com as amarguras e boas pautas que restaram de empregos passados.

As tardes passadas na prainha da ECA/USP não tem nem cinco anos, mas já parecem psicologicamente tão distantes… Os perrengues vividos no mercado de trabalho depois delas somaram-se à tendência que tenho de ter uma visão um tanto quanto amarga da vida, embora procure me manter otimista.

Mas, voltando ao principal desta página, o ‘Quem sou’, acho válida a descrição que mantenho no twitter (@brunabuzzo): Paulistana, ecana e jornalista. Irritadiça por natureza e frequentemente verborrágica, encontro nos filmes e livros os melhores calmantes.

Há também o suco de maracujá, que não está no twitter, mas sempre ajuda. A descrição que fiz de mim mesma no site Vereda Estreita, do qual sou colaboradora, também é válida:

“Viciada em cinema e fotos. Irritadiça por natureza. Dorminhoca e frequentemente verborrágica. Paulistana incorrigível. Fotógrafa amadora nas horas vagas e em momentos de tédio. Encontra na noite a luz ideal. Não há cenário melhor que o urbano para ver e registrar histórias, seja em imagens ou textos. Sem ter tido idéias melhores para seu futuro, em 2007 foi estudar jornalismo na ECA/USP, conheceu um mundo mágico na faculdade e acabou gostando da profissão, que cresce a cada dia em seu interior e lhe fez abrir os olhos para o mundo. Entre uma viagem e outra pela cidade de São Paulo, os livros são companhias sempre fiéis. O cinema está sempre presente e se mostrou necessário, foi o jeito saudável que encontrou de lidar com a vida. Enquanto não pode conhecer o mundo, vai descobrindo um pouco de cada cultura atráves dos filmes e livros. Assistia muito telejornal quando criança e descobriu muito cedo que o mundo real jamais será uma comédia romântica.”

Em resumo, então, sou uma mistura da cidade em que vivo com a profissão que escolhi e a faculdade em que estudo. Juntando-se a tudo isso uma pitada de amargura e um grande interesse por produtos culturais. Ou eu poderia escrever simplesmente:

Quem sou: Jornalista paulistana prestes a se formar pela ECA/USP. Amante de livros e filmes.

Seria mais simples, mas, como eu já havia dito, sou tagarela.

Escrevi este texto no dia 17/07 e o mantive por algum tempo na página “Quem Sou”. Depois de editá-la, publico-o aqui, na data que seria um dia após o texto ter sido escrito (18/07).