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Dia de quermesse

O forró corre solto no bar da praça. Milho verde, pamonha, cural. O cheiro do churrasquinho a se espalhar pelo ar.

Barracas com brinquedos pelo caminho: a felicidade dos pequenos não custa mais que 2 ou 3 reais, Tem até vendedor de pão doce! E doces outros não faltam. Tem também amendoim, pipoca, paçoca.

Falta o colorido das bandeirinhas para quebrar o cinza do ambiente e animar o movimento. O cheiro dos gatinhos picados no espeto chega até o trem, que espera sua vez de sair da brincadeira, enquanto a música sertaneja anima os transeuntes.

No largo de Osasco, todo dia é dia de quermesse, de forçado vai e vem.

A carne corrompida da mãe gorda

Num submundo ou cidade paralela, três gordas ratazanas disputam o espaço de uma árvore. Ou brincam, correndo em volta de suas raízes. Nos arredores da Praça Roosevelt, são mais bem alimentadas que outros com os quais cohabitam.

Do bueiro na Brigadeiro Luís Antônio, a gorda barata tem camadas de fazer inveja à Kafka. As antenas farejando o ocre do subterrâneo.

Reinam soberanas na noite da cidade, esquecida de suas mazelas, largados seus habitantes à própria sorte. Seguem as quatro, vão se juntar a outras gordas colegas da grande metrópole.

Se essa rua fosse minha

Em 20 anos, muita coisa muda em uma rua. Casas são demolidas, prédios, erguidos. Árvores caem, algumas são atropeladas. São muitos os modelos de carro que as construções que sobram viram passar. Muda a calçada, mudam os vizinhos, muda o bairro.

Aquele cachorro peludo, que parecia um urso e ficava visivelmente incomodado no verão, já não passeia mais pela calçada de ladrilhos. Não há mais ladrilhos, não há mais cachorro. Talvez tenha se mudado, talvez tenha morrido. Morreu a árvore frondosa, ali, quase no final da rua, foi atropelada no meio da madrugada. Deu até na rádio. Uma máquina da construção próxima, uma dessas retroescavadeiras, ou algo parecido. Acordei com o barulho, quando vi a pobrezinha já estava quase toda no chão, meio caída, sem energia, entrelaçada entre os fios. Já era antiga moradora da rua.

A escavadeira nem ligou, seguiu seu caminho logo depois que removeram o corpo. Voltou ao buraco onde hoje já se ergue vistoso prédio, ainda não concluído, mas quase lá. Dizem que é da Opus Dei. A maioria não entende, mas acha estranho. Antes daquela, outra grande máquina já criara buracos naquele mesmo local.

Ali havia uma casa imponente, já muito corroída pelo tempo. Cansada. Dentre as muitas famílias que ali moravam, dizem que um casal brigava quase todas as noites, com ameaças, polícia, facas e tudo o mais. Disso eu não me lembro. Era um cortiço, como tantas outras casas velhas do bairro. Quando tomei consciência da casa ali existente havia se transformado em uma oficina, depósito, algo assim. Uma única família tomava conta do lugar. Depois se foram, vieram carros, um ou dois funcionários. Depois se foi também a casa. E então veio o prédio, com seus tijolinhos aparentes e os vidros ainda não colocados nas janelas.

Muitas outras casas tombaram em minha rua. Nasci aqui, cresci em um prédio. O único do quarteirão. Hoje não mais. E não tardará para que seja um quarteirão repleto de prédios, como a rua de cima, e a outra, e tantas outras.

Eram todos vizinhos: a casa fantasma, a senhora com o estranho gorro preto no cabelo, o abacateiro. A casa de esquina há muito não se aguentava. Vidros quebrados, teto caído, a fachada cinza e os muros com tapumes. Quando finalmente foi demolida deu lugar a um posto de gasolina. Sua fachada decadente ainda trazia indícios do glamour que, imagino, tenha tido nos idos de 1950.

A senhora faleceu vítima de uma explosão de gás, diz o cabeleireiro vizinho ao meu prédio, que sabe de todas as fofocas da rua. Ao que parece, não queria sair do quarto que ocupava na pequena casinha. Já que o acidente doméstico se encarregou do problema, a casa foi vendida. O abacateiro resistiu por mais tempo, mas um dia também o levaram. Ficava na frente de uma casa com a fachada verde. Alguns dizem que se vendiam drogas ali.

No pequeno quarteirão, pelo menos 7 casas já tombaram. Seus habitantes foram empurrados mais uma vez para a periferia, suas histórias se foram, e com eles grande parte do bairro da Bela Vista, de casinhas e vilas operárias que os italianos por aqui construíram no começo do século. Fico imaginando como era a casa que tombou para dar lugar ao meu prédio. E quantas histórias ainda serão levadas pelas caçambas de entulho.