Uma cidade hostil

Nasci e cresci em São Paulo; nunca morei em outro lugar. Desde cedo, minha mãe me ensinou a desconfiar dos carros. “Sempre olhe para os dois lados da rua”, enfatizava. Depois de um tempo, veio a recomendação para sempre andar com a bolsa na parte da frente do corpo, de preferência protegendo-a com a mão.

Eu costumava defender a vida por aqui e os benefícios de uma grande cidade. Cada vez mais, no entanto, me pergunto se efetivamente vale a pena. São Paulo nos ensina a entrar em filas, a achar normal passar uma hora dentro de um ônibus ou carro. Mas, acima de tudo, me parece que São Paulo nos ensina a ter medo (da violência, dos carros… Até do tempo!).

São Paulo é uma cidade hostil e que sufoca. Acho que isso resume a impressão que tem crescido em mim. Hostil em cada rua sem calçada, em cada carro buzinando ou passando no farol vermelho, no caminhar apressado [do qual sou adepta, mas do qual adoro me livrar]. E tudo isso nem sempre é pressa. Às vezes é medo de passar por determinada rua, vazia ou mal iluminada. O sufoco, por sua vez, começa nas filas e, no inverno, deixa de ser metafórico e passa a agredir nosso sistema respiratório com o tempo seco de poluição, as ilhas de calor, a inversão térmica e todas aquelas coisas às quais nos acostumamos.

Após a mesa de David Byrne na FLIP 2011, em que o debate girou em torno dos meios de transporte e de como eles interferem nos conjuntos urbanos, conversávamos entre amigos sobre esta hostilidade de São Paulo, uma cidade que não só não nos convida a passar a pé pelas ruas, como também afasta (e assusta) o pedestre. Não é fácil ser pedestre (ou sequer se locomover) por aqui. A verdade é que não é fácil viver aqui.

Sim, São Paulo tem de tudo. Muitas opções culturais, gastronômicas, tudo o que se pode imaginar, aqui tem. Mas tem também muita gente e pouca organização. Tem fila e caras fechadas para todo lado. Além de tudo, viver em São Paulo custa uma fortuna (viver bem, então…). São cerca de 11 milhões de habitantes morando na cidade (20 se contarmos a região metropolitana). Destes, no entanto, quem efetivamente vive em São Paulo?

Em tempo: na edição deste mês da Revista Piauí, a Vanessa Barbara escreveu um texto incrível sobre os “sem-carro”. Me identifiquei. [01/08]

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One response to “Uma cidade hostil”

  1. Caio says :

    quando cê descobrir me conta, tá? 😦

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