O que a Virada Cultural não aprendeu em 6 anos

Virada Cultural 2011, a 7ª edição, começou com um belo show de Rita Lee, que não poupou palavrões às autoridades municipais e estaduais – sem o menor pudor por estar recebendo cachê da Prefeitura de São Paulo. “Moro em São Paulo há 65 anos, entra e sai prefeito e governador e eles não fazem p… nenhuma”, foi uma das tiradas que a cantora soltou enquanto cantava “Ovelha Negra”. As cerca de 20 mil pessoas presentes no palco da Praça Júlio Prestes (segundo estimativa da Polícia Militar) aplaudiram freneticamente.


Diluído
A estratégia da organização da Virada este ano foi concentrar a programação que atrai mais público no domingo. Percebeu-se que havia uma queda no número de pessoas do primeiro para o segundo dia e – após seis anos – resolveram tentar algo novo. De certa forma deu certo, pois a Virada realmente pareceu mais equilibrada – ou um pouco mais vazia em cada um dos dias.

Bebidas
A medida polêmica do prefeito Gilberto Kassab, que proibia a venda de bebidas alcoólicas durante os dois dias, foi aprovada por uns e condenada por outros. Claro que na prática não funcionou quase nada. Era possível ver vendedores ambulantes despreocupados, trabalhando com os artigos proibidos sem o menor pudor, com a tranqüilidade da falta de fiscalização a seu lado. Assim, na madrugada, a incômoda e inapropriada embriaguez da grande maioria dos “virantes” aconteceu novamente.

Problemas de som
A organização tem de entender de uma vez por todas que há certas apresentações que não encaixam bem em Viradas – seja por exigirem um primor técnico que requeira melhores condições para apreciar, seja por falta de estrutura ou pela falta de preparo do próprio público.


O show de Paulinho da Viola com a Orquestra e Cordas de Curitiba foi um exemplo derradeiro. Parte da plateia teve dificuldades para apreciar tamanha sensibilidade e minimalismo: o som estava baixo ao fundo e nas laterais do palco montado na Praça da República e, em ao menos três momentos, foi possível ouvir pedidos para que se aumentasse o som. (Uma falha no som já havia feito com que o músico – sempre exigente com a acústica de seus shows – demorasse mais de meia hora para entrar no palco, enquanto testavam equipamento e buscavam corrigir os problemas – não com total sucesso, infelizmente).

Pancadaria
Mais uma vez a Virada foi palco de pancadaria. Depois do traumatizante quebra-quebra ocorrido no show do Racionais MC’s em 2007, em 2011, apesar de todos os esforços para evitar, houve problema. No show da banda de punk horror Misfits, um carro da polícia resolveu passar no meio da multidão, e foi o estopim para que a violência e a falta de controle se instalassem. Muito nervosismo e despreparo das autoridades ficaram claros para quem estava assistindo ao show.

Fab4
Um ponto alto da Virada 2011 foi o palco dos já lendários Beatles 4Ever. Em 24 horas, os músicos tocaram, emocionaram e levantaram o público com todos os álbuns lançados pelos ingleses de Liverpool, sendo uma ótima alternativa pra qualquer intervalo de programações.

Integração
Apesar de todos os problemas e questões que ano após anos precisam ser revistas, a Virada Cultural sempre se apresenta como um evento democrático. Há apresentações para todos os gostos, só não vai quem não gosta de multidões. Mesmo assim, a multidão ali é diferente, em geral bem humorada (ao menos um pouco mais do que no dia-a-dia paulistano) e aberta a novas possibilidades – seja parando em um palco aleatório para ouvir uma música diferente, seja conversando sobre seu artista preferido com um desconhecido na multidão.

Um centro para a cidade
A Virada é também uma chance de conhecer o centro de São Paulo, em geral abandonado. Durante um dia comercial, há um grande movimento de lojas e escritórios. À noite, assusta. Aos domingos, lembra histórias de cidades fantasma, com prédios e pessoas abandonadas. Para onde vão essas pessoas durante este que se apresenta como um dos maiores eventos culturais da cidade de São Paulo?

Por que não nos sentimos seguros para frequentar o centro da cidade em outros finais de semana? Por que Paulinho da Viola não pode sorrir na Praça da República com mais frequência? Espalhar a Cracolândia e fechar albergues durante o ano para limpar o centro da cidade por dois dias, como vemos, não tem funcionado. Não foram gratuitos os xingamentos de Rita Lee.

Texto meu e do Victor Gouvea (@blasfemico) publicado dia 27 no Vereda Estreita.

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