O primeiro que disse

Gostaria de escrever sobre o filme “O primeiro que disse” (Mine Vaganti) sem estragar a surpresa que me causou. Sem revelar os detalhes da trama que foram tão divertidos vistos às cegas. O que mais me agrada em cabines de imprensa ou mostras de cinema é o ineditismo.

Evito ler sinopses, não gosto delas desde que vi “A ilha”, cuja sinopse entrega o ouro dizendo que os protagonistas são clones. Eu não tinha lido nada sobre o filme, fui vê-lo apenas porque tinha Ewan McGregor no elenco. E aí eu caí, como os personagens, na história da ilha. Fui descobrindo junto com eles que era tudo uma grande farsa criada para que os verdadeiros humanos vivessem mais. Foi incrível! Uma experiência artística que desejo a todos. (Sugiro apenas, é claro, algumas precauções para não acabar caindo em algum besteirol.)

Voltando ao filme que assisti ontem, “O primeiro que disse”, e que estreia dia 1º nos cinemas paulistanos: a sinopse do filme, aquela que veio no release, revela até detalhes que acontecem já quase no final do longa! Mas eu só a li depois de voltar do cinema e, infelizmente, não há como falar do filme sem revelar alguns detalhes. Uma pena.

O longa retrata dois irmãos gays envolvidos em um dilema: seguir com suas vidas ou assumir os negócios da família conservadora, que vive em uma pequena cidade na Itália e tem uma fábrica de macarrão (mais caricatural impossível!). Antonio, o primeiro que fala, como revela o título, é o que se dá melhor – embora provoque um enfarto no pai, que não aceita o filho homossexual, o expulsa de casa e passa a acreditar que todos na rua riem dele.

Seu irmão Tomasso (Riccardo Scamarcio, dono de lindos olhos azuis), que tinha intenção de contar antes e acaba encurralado pela família, se vê distante de seu namorado e da vida que deixou em Roma. Ele vai ficando na bela e pequena Lecce, faz amizade com a filha do sócio de seu pai e até se diverte um pouco, mas está infeliz.

Está é a primeira metade do filme: a família, a tristeza e a amizade com a bela Alba (Nicole Grimaudo). Então, os amigos de Tomasso (e seu namorado) decidem visitá-lo em Lecce. E aqui o filme se assume, como se ele próprio saísse do armário: os três amigos tentam esconder uma divertida afetação e Mateo, o namorado deixado em Roma, é discreto e charmoso.

Marcante na trilha sonora, a música “50 mile”, de Nina Zille, que o protagonista dança em frente ao espelho logo no começo do filme, já anuncia o que o espectador verá na cena em que os cinco amigos e Alba, perfeitamente integrada, dançam “Sorry, I’m a Lady”, de Baccara, na praia. Genial!

“O Primeiro que disse” me lembrou um pouco o espanhol “À moda da Casa” (Fuera de Carta), outra comédia gay que assisti na Mostra 2008 e que chegou a passar em alguns cinemas de SP em 2010, se não me engano. Mas o italiano tem a vantagem de ser mais sútil, sem o exagero dos filmes espanhóis, mas com o bom humor característico de filmes que abordam a temática gay de maneira natural, como tem de ser.

Outro destaque do filme é a matriarca da família, a nona de Tomasso: a atriz Ilaria Occhini interpreta uma senhora diabética, viciada em doces, e com um passado que a persegue, um detalhe sempre presente no filme. Compreensiva, ela é a única que sempre soube que seus dois netos eram gays, embora ninguém mais suspeitasse. Ela sabe que não se pode fugir do passado, das escolhas e mentiras que deixamos para trás. Talvez seja a “nona” (curiosamente sem nome) o grande eixo motor do longa: ela é o porto seguro dos netos, faz a alegria e tristeza da família e serve como elemento conciliador.

“O primeiro que disse” é leve e divertido, sem deixar de fora a reflexão sobre o preconceito, os tabus familiares, os desafios encontrados pela população homossexual em comunidades fechadas e conservadoras, e as escolhas sem volta que tomamos na vida.

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One response to “O primeiro que disse”

  1. Diego D Leon Correia says :

    Simples, emocionante, instigante, surpreendente e VIVO.
    Acabei de chegar da Reserva Curltural após ter assistido “Mine Vaganti”. Recomendo o filme àqueles que querem sentir o que é vida.
    Ah! e sugiro também não ler a sinópse, para que cada cena o surpreenda.
    E outra dica, se permitam!

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