FLIP: Estudiosos debatem importância da mestiçagem estudada por Freyre

Na última mesa da FLIP a discutir a obra de Gilberto Freyre, o homenageado desta Festa, os estudiosos José de Souza Martins, Peter Burke e Hermano Vianna, mediados pelo escritor Benjamin Moser, conversaram sobre a importância da obra do autor de ‘Casa Grande & Senzala’, que, para eles, permanece atual em seus estudos sobre mestiçagem.
O historiador britânico Peter Burke disse, em um português que agradou ao público, que a obra de Freyre vai muito além do simples estudo da mestiçagem, ele analisa a vida cultural brasileira em detalhes, contando minúcias do cotidiano nacional durante a colonização.

Já o sociólogo brasileiro José de Souza Martins acredita que a grande questão em Freyre é a racial. Para Souza, Freyre teve o mérito de estudar a diferença que existia entre os próprios negros dentro do antigo sistema colonial: os senhores de escravos selecionavam quais negros iriam adentrar à casa grande e quais continuariam na senzala, uma vez que vieram para o Brasil vários tipos de escravos, alguns mais instruídos que seus senhores.

Souza lembrou ainda que o Brasil é baseado em uma diversidade cultural que vai muito além das três raças frequentemente citadas (branco, índio, negro), lembrando que, sem o inhangatu, nós “não estariamos aqui em Paraty, nem iríamos de um bairro a outro de São Paulo”, referindo-se aos nomes indígenas de cidades e bairros.

Falando da rivalidade muitas vezes lembrada entre a USP (Universidade de São Paulo), à qual pertence, e Freyre, Souza falou que tal oposição é muitas vezes forjada. “São estudos diferentes. Freyre incorpora o imaginário na discussão sociológica, a USP é mais sisuda. Freyre coloca suas próprias lembranças na discussão. Ele nasceu 12 anos após a abolição da escravidão, então chegou a conversar com ex-escravos, conviveu com eles. Freyre era um documento vivo!”, brinca.

Entrando um pouco tarde na discussão, o antropólogo Hermano Vianna contou que Gilberto Freyre sempre foi “uma grande caixa d’água” para ele, da qual bebeu em diversos momentos diferentes. “Os estudos de Freyre sobre samba me inspiraram a escrever meu doutorado [que deu origem ao livro ‘O mistério do samba’].”

Vianna acredita que o elogio da mestiçagem em Freyre não deve ser usado para justificar os preconceitos presentes na sociedade brasileira. “Ele nunca falou sobre Democracia Racial. Isto foi usado para esconder o racismo existente sob a idéia de mestiçagem. Acho que Freyre é muitas vezes mal interpretado.”

Matéria escrita e publicada domingo (08) no Portal da RedeTV durante a cobertura da FLIP 2010.

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