FLIP: Salmon Rushdie diz que prefere deuses mortos

Há 21 anos, quando publicou o livro ‘Os Versos Satânicos’, Salmon Rushdie foi acusado de incentivar a desistência do islamismo, foi perseguido e teve até livros queimados. Na noite desta sexta-feira, em uma das mais concorridas mesas da FLIP, o escritor indiano conversou com o público sobre sua obra, sem deixar política e religião de lado.

Lançando ‘Luka e o fogo da vida’ mundialmente em Paraty, Rushdie pediu, logo no começo da mesa, que seu filho, em quem se inspirou para escrever o livro, subisse ao palco e fez um agradecimento público ao menino de 13 anos citando a importância de obras dedicadas a crianças reais, como ‘Alice’ e ‘Peter Pan’.

Falando sobre seus ideais, Rushdie contou que, a certo ponto, percebeu que devia escrever sobre os princípios nos quais acredita, e não sobre aqueles que é contra. Ele afirmou que tem pensado sobre questões como o fundamentalismo há muito tempo, mesmo antes de querer ser escritor. “Se você nasce na Índia, você vive em um ambiente de violência extrema. Eu assisti o crescimento do fundamentalismo, muito antes dele vir na minha direção”, afirmou.

Rushdie acrescentou que, nos Estados Unidos, muitos com quem conversou se surpreenderam quando ele disse que não tinha religião. “Na Europa isso já uma coisa normal, mas nos EUA todos ficaram surpresos.” Para o indiano, os deuses se tornam mais interessantes quando morrer, “porque se transformam em mitos, histórias com narrativas fascinantes”, referindo-se à mitologia grega. Rushdie acredita que o problema dos extremistas de hoje é que “seus deuses ainda estão vivos. Seria bom que esses deuses morressem, para se transformarem em narrativas, e pessoas pararem de morrer em seu nome.”

Apesar dos problemas que teve com os radicais islâmicos, Rushdie evitou críticas excessivas ao Irã, citando a fala de Azar Nafisi na mesa anterior à sua, e disse apenas que “as pessoas no Irã devem mudar o sistema em que vivem”. “Eu não estou aqui para falar de política, mas sim de um livro”, finalizou.

Premiado com a medalha de cavalheiro pela rainha da Inglaterra, Rushdie disse que um escritor precisa “ver tão claro quanto ele puder e dizer as coisas nas quais acredita, mesmo que as pessoas não gostem.” Sobre o país natal, que deixou aos 13 anos, o escritor (que vive na Inglaterra) disse que a Índia é sempre sua inspiração: “minha família está toda lá e o tipo de história que escrevo hoje é resultado das histórias que cresci ouvindo na Índia”, afirmou, acrescentando que seu país ainda precisa lidar com uma grande desigualdade social.

Aproveitando a viagem ao Brasil, o indiano confessou ter roubado ideias de Machado de Assis, de quem disse ser grande fã. Do argentino Jorge Luís Borges, ele contou, rindo, que precisou se controlar para não copiar o estilo da escrita. O indiano revelou que se irrita quando lhe perguntam os motivos pelos quais escreve: “não gosto de ter de estar sempre explicando”.

Matéria escrita e publicada sexta-feira (06) no Portal da RedeTV durante a cobertura da FLIP 2010.

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