Conheça o bem bolado do rock brasileiro

Apesar de ter surgido meio por acidente, o rock brasileiro se destaca por sua originalidade em misturar ritmos e criar algo novo. Esse jeitinho brasileiro de fazer música, que mescla o rock norte-americano com os sons típicos do país, ganhou voz e as paradas de sucesso, criando algo novo, em um processo característico do rock.

O cantor e jornalista Kid Vinil, autor do livro ‘Almanaque do Rock’, diz que o rock surgiu por aqui junto com o rock lá fora, nos anos 50. “Os primeiros artistas de sucesso foram Celly e Tony Campelo, eles impulsionaram o rock no Brasil.” Em 1958, os irmãos lançaram o compacto ‘Forgive Me/Handsome Boy’, que vendeu 38 mil cópias.

O pontapé inicial, no entanto, foi dado pela cantora de bossa nova Nora Ney, que, em outubro de 1955, regravou a música ‘Rock around the Clock’, de Bill Haley & His Comets. Vinil comenta que “as primeiras gravaçoes [de rock] foram feitas por cantores de bossa bova, que não tinham muita noção do que estava acontecendo.”

Os produtores musicais iam aos Estados Unidos e, na volta, apresentavam ideias de regravações e adaptações para os artistas nacionais. “A partir dessa primeira gravação, alguns cantores começaram a ouvir Elvis, Chuck Berry, e a fazer versões não só traduzindo a letra, mas adaptando-as à realidade brasileira. Até a Jovem Guarda era cópia mesmo! Foi na Tropicália que começaram a fazer letras próprias e sons originais”, afirma Vinil.

O cantor comenta que muitos não consideram a Jovem Guarda e algumas músicas da Tropicália como rock por preconceito. “Falta informação, parece que o brasileiro só conhece o ‘heavy metal’, mas foi a Jovem Guarda que popularizou o rock aqui no Brasil. É que todo mundo ficou brega depois e as pessoas esquecem que o Roberto [Carlos] já teve uma fase roqueira.”

Foi no Tropicalismo que o rock nacional começou a ganhar uma cara própria. “Foi o primeiro movimento que adaptou o rock à música brasileira. Os tropicalistas misturaram ritmos e criaram um som que tem tudo a ver com o rock, era uma mistura de MPB com psicodélico. ‘Os Mutantes’ foram a primeira banda que fez um rock legitimamente brasileiro e são os únicos reconhecidos no exterior como clássicos do rock do país; e eles são fruto da tropicália, como [Gilberto] Gil, Caetano [Veloso], que [nos anos 60/70] faziam um rock misturado com outros ritmos”, afirma Vinil.

O grupo ‘Secos & Molhados’ também entra nessa categoria. “Os brasileiros tinham uma cara, não era só cópia! Eles misturavam Vinícius de Moraes com rock, esse é o grande lance da música brasileira, misturar as coisas. Muitas bandas posteriores fizeram isso, de Paralamas [do Sucesso] à Sepultura”, elogia Vinil.

O músico comenta que muitos artistas apenas se inspiram no rock extrangeiro, “mas é mais interessante quando se mistura a raiz da música brasileira com o rock. Uma banda igual aos Rolling Stones, por exemplo, pode até ser legal, mas não tem graça, falta o elemento surpresa. Essas bandas emos de hoje praticamente só copiam o que é feito lá fora, sem nenhuma originalidade.”

Todos os grandes músicos que vieram depois – Raul Seixas nos anos 70, bandas como Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso nos anos 80, Cássia Éler e Skank nos 90 e os contemporâneos do Móveis Coloniais de Acajú – misturam sons e criam novos estilos. Alguns inovaram tanto que às vezes não são considerados rock: foi o caso dos recifenses do movimento Mangue Beat dos anos 90, liderado por Chico Science.

Kid Vinil aposta que os novos hits brasileiros vão surgir do movimento underground: “hoje há um mundo enorme de novidades aparecendo, tem muita coisa boa na internet, mas as pessoas não procuram. O brasileiro é um pouco resistente à cena underground. O rock que a indústria divulga é sempre o arroz-feijão, não tem nenhuma novidade. O novo assusta. As pessoas precisam abrir a cabeça, tem muita coisa boa e nova por aí!”

Matéria escrita e publicada hoje no Portal da RedeTV.

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