Missão: Haiti

No último dia 25 de fevereiro, a terceira equipe da ONG Expedicionários da Saúde desembarcou de um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) em Porto Príncipe, a capital fortemente atingida pelo terremoto que abalou todo o Haiti em 12 de janeiro. Composto por 15 pessoas, o grupo era formado por nove médicos, um técnico de raio X, um responsável logístico e quatro enfermeiros que voltaram ao Brasil 18 dias depois, em 13 de março.

A cirurgiã vascular Roberta Murasaki Cardoso coordenava o grupo que chegou ao país cerca de um mês e meio após o desastre. Os casos mais agudos foram atendidos pelas duas primeiras equipes organizadas pelos Expedicionários; o grupo de Roberta cuidou de um grande número de pessoas com sequelas do terremoto, mas também de muitos ‘pacientes comuns’, vítimas de um país que, se já não tinha infraestrutura antes, foi completamente arrasado pela catástrofe natural. A cirurgiã destaca que o maior desafio agora será reconstruir tudo, ajudando os haitianos a andarem com as próprias pernas.

Natural de São Paulo, Roberta se formou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e fez sua residência e especialização no Hospital das Clínicas da USP. Hoje com 34 anos, a cirurgiã conta que, há 4 anos, por intermédio de um colega da época de faculdade, conheceu os Expedicionários da Saúde e se apaixonou pelo trabalho desde a primeira expedição.

O foco da ONG é levar atendimento médico-cirúrgico especializado aos índios na Amazônia brasileira. Desde que foi fundada, em 2003, a ONG organiza duas expedições por ano, geralmente em abril e novembro, levando um centro cirúrgico móvel (montado em uma barraca perfeitamente esterilizada e equipada) e uma equipe composta por cirurgiões, oftalmologistas, anestesistas, ortopedistas e outros profissionais da área médica, todos voluntários. A ONG depende de doações para manter seus trabalhos. Roberta diz que não é difícil conseguir equipamentos e suprimentos, mas as pessoas hesitam em doar dinheiro, necessário à logística dos trabalhos.

Missão: Haiti
A cirurgiã conta que a missão para o Haiti veio como resultado de toda a experiência adquirida com as expedições à Amazônia. “Quando aconteceu o terremoto, a primeira idéia do Ricardo [Affonso Ferreira, ortopedista e um dos fundadores da ONG Expedicionários da Saúde] foi levar a estrutura que já tínhamos pra lá: os equipamentos, os médicos. E nós conseguimos organizar essa expedição sem afetar os trabalhos aqui no Brasil. A expedição para a Amazônia vai sair na data prevista, com toda a estrutura e qualidade que a gente sempre teve.”

No Haiti, as equipes se instalaram no Hospital Canadense Brenda Strafford, em Les Cayes, cidade “relativamente poupada” localizada a 150 quilômetros da capital Porto Príncipe. Apesar de não precisarem levar o centro cirúrgico móvel, os Expedicionários tiveram que levar todo o equipamento necessário aos trabalhos. Roberta conta que “a estrutura do hospital estava muito comprometida. Monitores, material ortopédico, gaze, remédios, aventais, luvas, isso tudo foi daqui. A segunda equipe levou mais algumas coisas que faltavam, como autoclaves para esterilização de instrumentos, e ensinamos eles a usarem, por que lá só tinha uma estufa velha. Tudo o que nós levamos vai ficar, já levamos sabendo que o que ia não ia voltar. Não tem como você ir para um lugar assim e trazer suas coisas de volta, não dá.”

Roberta conta que o sistema de saúde haitiano, que já não era bom antes do terremoto, está completamente destruído. Em um país onde a maioria dos hospitais são privados, as pessoas não têm condições de pagar pelos serviços. “Ainda tem muito paciente do terremoto para ser tratado, por conta de complicações em fraturas ou cirurgias, infecções ou paraplegias. Mas a vida segue. O trânsito lá é um caos: nós atendemos um monte de gente quebrada. Por que era uma equipe que estava lá, atendendo de graça e oferecendo atendimento especializado. Tivemos muitas cirurgias ortopédicas que não eram de vítimas do terremoto. Atendemos quem estava internado com sequelas do terremoto e na medida do possível íamos atendendo quem chegava.”

Falando da dedicação dos Expedicionários aos trabalhos, a cirurgiã se emocionou com suas lembranças. “Ainda não deu tempo de absorver tudo. O Haiti foi muita coisa. Você ouve a história das pessoas, do que elas estavam fazendo no terremoto. Você ouve alguém falar que a casa caiu enquanto estava do lado de fora, que ele ouviu a família gritando e não tinha o que fazer. E ele ouvia um parar de gritar por que tinha morrido. E todas as pessoas ali estavam tentando salvar sua família, não tinha muito como ajudar os outros, todo mundo estava precisando. É um negócio triste, chega uma hora que é difícil ouvir, é muita coisa.”

Pequena esperança
Em meio a tantas histórias tristes, Roberta se alegra ao lembrar do caso de uma menina de 9 anos que eles conseguiram ajudar. “Ela estava muito mal quando chegou, com o batimento cardíaco e a função respiratória muito comprometidos. Tinham feito uma traqueostomia [pequeno buraco na traquéia para ajudar a respirar] nela em um outro hospital a umas três horas de Les Cayes, só que foi um procedimento sem indicação e mal feito. Ela tinha complicações de uma pneumonia. Nós tivemos que entubá-la e colocá-la no ventilador, mas ela precisava de um ventilador mecânico e nosso hospital não tinha um. Precisávamos transferí-la. Isso eram mais ou menos dez da noite. A noite é impossível transferir pacientes para qualquer lugar; na cidade em que estávamos nenhum hospital tinha um ventilador mecânico.”

Após passarem a noite inteira se revezando e ventilando a menina na mão, eles conseguiram um avião que a levasse para o Hospital que a Universidade de Miami montou no aeroporto de Porto Príncipe. “Quando o avião decolou foi uma emoção geral! E o melhor foi que no dia em que nós voltamos pro Brasil tivemos um tempo antes que o avião da FAB decolasse e conseguimos visitá-la no Hospital. Ela estava super bem, acho que não entendeu por que aquele monte de marmanjo estava chorando em volta dela. Mas aí descobrimos que o tio que levou ela até nós tinha ido embora, por que não tinha como cuidar dela. Como ela perdeu os pais no terremoto, estava para adoção. Aí todo mundo ficou meio triste.”

A médica conta que agora há muitas crianças órfãs no país. “Mas também tem muita gente tentando ajudar. Tem as instituições, mas também têm os anônimos, os haitianos que estão tentando cuidar do seu próprio povo, e para eles a ajuda é muito mais difícil. Um dia a gente estava no hospital e começamos a ouvir uma música vinda do portão dos fundos, um canto meio religioso. Eu sai pra ver e era um barracão em que estava acontecendo uma cerimônia religiosa. Atrás tinha um cobertinho, com um monte de criança e uns banquinhos: era uma escola. Um haitiano que está cuidando de 90 orfãos. Tem três professores que ensinam as crianças de baixo de uma lona.”

Futuro
Roberta diz que os Expedicionários agora querem ajudar a reabilitar as pessoas no Haiti. “Nosso foco é montar um esquema de fisioterapia, levar próteses para reabilitar pessoas amputadas ou com sequelas de fraturas. Nós vamos levar uma equipe de fisioterapeutas nossos, mas a ideia é que eles também treinem os haitianos para ajudar nos tratamentos. Queremos ajudá-los a andar com as próprias pernas, no duplo sentido.”

A cirurgiã completa afirmando que “não adianta nada ir uma ajuda externa, ajudar um pouco e depois ir embora. É preciso investir em educação, por que lá agora vai ter uma falta de gente com formação muito grande: os hospitais e universidades foram destruídos, os médicos morreram. Por que ajuda imediata não resolve o problema. A longo prazo, não tem como ajudar um país sem passar pela formação do povo. É preciso capacitar os haitianos para que eles consigam levar o país deles para frente.”

“É complicado”, finaliza Roberta: “no Haiti tem muita coisa que mexe com a gente. Eu sou durona, mas chorei milhões de vezes. Não me pergunte quantas. É uma pena. E o país é lindo, com um mar maravilhoso. Mas não foi o terremoto que estragou, o Haiti já estava em uma situação complicada. E agora não pode ser esquecido.”

Texto originalmente escrito para a edição número 12 (abril a junho de 2010) da Revista DNA São Luiz. A versão editada está disponível em http://www.saoluiz.com.br/files/revistadna/Revista%20DNA%20012.pdf (pág. 28).

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