Uma mãozinha da internet

“Relacionar-se pela internet é natural”, afirma a psicóloga do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC-SP Andrea Jotta: “O ser humano é um ser social, ele vai tentar se relacionar da maneira que conseguir. Nas grandes cidades, é cada vez mais difícil encontrar tempo para ver os amigos e conversar, a internet surge como facilitadora. Mas quem fica apenas com amigos virtuais e exclui os amigos do mundo offline não faz um bom uso da tecnologia”, afirma.

Uma coisa boa que a internet trouxe, segundo Andrea, foi a possibilidade do indivíduo ter tanto relacionamentos presenciais quanto os virtuais. A estudante de engenharia Juliana Soares, por exemplo, mantem contato com seus amigos de colégio e faculdade pelo orkut, mas também já fez várias novas amizades pelo site. Para ela, as formas de relacionamento virtual não são tão diferentes do que acontece no mundo offline, “quando você conhece alguém, a amizade segue alguns passos de aproximação e isso é igual no mundo ‘real’ e no virtual”, afirma.

“Fiz alguns amigos em comunidades com discussões interessantes e membros ativos. As conversas evoluem, tornam-se praticamente diárias, e vez por outra duas pessoas que concordam começam uma conversar pelos recados pessoais, depois se adicionam no MSN e isso pode dar em uma amizade.”, conta Juliana.

Ou pode dar em casamento, como no caso da desenhista Ila Roberta de Oliveira, 28 anos, que conheceu seu marido Ricardo (34) na comunidade “Saudosistas da Era MSX”, “uma comunidade bem nerd”, segunda a própria Ila. “O MSX foi um dos primeiros computadores que surgiram, e muitos nerds mais velhos gostam dele. Eu era uma das poucas mulheres que comentava sempre na comunidade. O Ricardo também escrevia sempre e um dia ele me mandou uma mensagem pessoal. Achei que fosse só mais um admiradorzinho e nem dei muita bola”, conta.

“Ficamos amigos, mas a distância era um problema, eu morava em Londrina (PR) e ele em Belo Horizonte (MG). Eu já tinha namorado a distância antes e não tinha dado certo, na internet há o risco de você se apaixonar muito rápido e depois se decepcionar, então com o Ricardo eu fui sem expectativas. Achava que era só um rolinho sem futuro, mas ele sempre cumpriu todas as promessas que me fez, me ligava quase todos os dias, mandava presentinhos por sedex.”

Eles começamos a conversar em setembro de 2008, se conheceram pessoalmente em novembro quando ele foi visitá-la em Londrina e, no Reveillon, ele a pediu em casamento. Ila conta que demorou um tempo para digerir o pedido, “achava que não era pra tanto, mas senti falta quando ele passou um tempo na Índia, a trabalho, e era difícil nos falarmos até pela internet. Foi quando percebi que eu gostava mesmo dele, resolvi aceitar!” Eles casaram em maio do ano passado e hoje vivem juntos em Belo Horizonte.

Nos relacionamentos virtuais é preciso tomar cuidado com as expectativas. O que Ila aprendeu na prática, com um namoro virtual frustrado, a psicóloga Andrea aponta como um fator de precaução. “Os vínculos na internet tem uma exposição maior, principalmente quando não há intenção de trazer a relação pro presencial. Quando há essa intenção, os relacionamentos são parecidos com os presenciais. É importante saber que os dois têm a mesma intenção; caso contrário, a pessoa que deseja uma relação presencial deve sair frustrada, por ter criado expectativas afetivas que o outro não atendeu.”

A psicóloga complementa afirmando que as relações presenciais e virtuais não diferem muito. A divergência de interesses ocorre nos dois casos e aquele que se envolve afetivamente sempre acaba decepcionado. “A diferença é que no face a face você vê a pessoa e vai desconstruindo as suas expectativas e adaptando ao que o outro tem a oferecer. Algumas relações sobrevivem a isso, outra não. No virtual, é mais difícil para um destruir as expectativas do outro e muitas vezes a decepção é maior quando você traz isso para o presencial.”, alerta Andrea.

A melhor forma de proteção, segundo a psicóloga, é ter claro em mente o que você espera de cada situação e estabelecer algumas regras que você não deve romper por nada. Ila também dá uma dica preciosa: sempre que possível, use uma webcan, assim é possível ver as expressões faciais do outro lado e fica mais fácil perceber se a pessoa está mentindo ou não. Andreia finaliza dizendo que “a internet é como a praça de antigamente: todo mundo se exibe e se conhece; mas, se você não vai à praça com uma melancia na cabeça, não há porque fazê-lo no orkut!”

Parte 2 da pauta “Uma mãozinha da internet”, que começa AQUI.

Texto escrito entre fevereiro e maio de 2010 para o Portal Vital, da Unilever. A versão editada está disponível no site, cujo acesso é restrito a usuários cadastrados. Atribui uma data aleatória para a publicação do texto aqui no blog, apenas para mantê-lo como registro.

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