Como funciona o trabalho dos terapeutas ocupacionais

A Terapia Ocupacional (TO) é uma profissão da área da saúde, de nível superior e com formação e regulamentação próprias, mas muita gente ainda não sabe como funciona o trabalho dos TOs. Apesar de utilizar práticas estabelecidas desde os tempos mais remotos, o termo terapia ocupacional só surgiu em 1915, quando William Dunton publicou o livro “Occupational Therapy: manual for nurses” (Terapia Ocupacional: manual para enfermeiras) e criou a primeira escola na área, em Chicago (EUA), impulsionado pela necessidade de tratar os soldados que voltaram da Primeira Guerra Mundial. No Brasil, o primeiro curso surgiu na USP (Universidade de São Paulo), no final da década de 50. A profissão, no entanto, só foi regulamentada em 1969.

Os terapeutas ocupacionais se preocupam em melhorar o dia-a-dia de seus pacientes, permitindo que eles realizem as atividades elementares para suas vidas de maneira autônoma. Seus pacientes são pessoas que ou sofreram alterações em suas vidas e passaram a lidar com dificuldades ou já nasceram com limitações. O tratamento se dá através de intervenções para o autoconhecimento, aceitação e adaptação à realidade vivida.

A professora Liliane Moraes Amaral, coordenadora do curso de Terapia Ocupacional da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), afirma que a principal referência da TO é a ciência da ocupação humana, “a capacidade que o ser humano tem de se apropriar do conhecimento produzido sobre o que é a ocupação humana”, onde importam todas as atividades que o paciente vai desenvolver em todas as idades e esferas de sua vida.

Minha Casa Minha Rua
A TO Renata Queiroz trabalha há 4 anos na Associação Minha Casa Minha Rua, ONG da área social que mantém um centro de convivência para a população adulta de rua em baixo do viaduto do Glicério, em São Paulo. O local, chamado de casa pelos participantes, funciona somente durante o dia e oferece, devido a um convênio com a prefeitura, alimentação e banho para 200 pessoas por dia. Mas Renata explica que o objetivo da ONG não é oferecer serviços básicos, mas sim “reconhecer as pessoas em situação de rua como sujeitos de direito, construir trabalhos sócioeducativos, estimular motivação para que elas reconheçam que são capazes de produzir mudanças em suas vidas.”

A Associação tem vários grupos, dos quais quem se associa pode participar. Os grupos têm profissionais, mas Renata explica que são os próprios moradores de rua que fazem o trabalho acontecer, eles são estimulados a participar do atendimento que é oferecido na casa, onde tudo é feito em esquema de multirão, uma forma de quem participa se sentir útil e produtivo.

Renata coordena o grupo de artesanato consciente da Associação, que trabalha com materiais recicláveis na confecção de decorações para a casa e presentes para os aniversariantes do mês, além de produzir objetos de uso doméstico e produtos que são encomendados por clientes que têm parceria com a ONG, oferecendo a possibilidade de geração de renda para quem participa do grupo.

A terapeuta ocupacional conta que muitas pessoas que passam pela casa conseguem recuperar a autoestima, o cuidar de si mesmo e passam a ajudar nas atividades da casa. Algumas conseguem empregos, saem das ruas e retomam suas vidas, mantendo ainda os laços com a instituição, que se tornou referência para a população de rua.

Lúcia, por exemplo, freqüentou o grupo de artesanato por cerca de dois anos, quando ele ainda trabalhava apenas com confecção de bijuterias. Ela tem um comprometimento cognitivo que dificulta seu raciocínio e morou na rua durante muitos anos. Ali, ela aprendeu a fazer bijiterias e começou a vendê-las. Depois de um tempo, voltou para a casa da mãe, em São Vicente, no litoral paulista. Hoje vende colares em uma barraca na praia e ainda faz visitar regulares aos amigos que fez na casa.

Igor também freqüentou os grupos da Associação durante muito tempo e conseguiu se recuperar. Como a maioria dos moradores de rua, era alcoólico. Hoje ele trabalha na casa como técnico de manutenção, saiu das ruas e conseguiu controlar o antigo vício. A TO Renata conta que, como Igor, vários ex-moradores de rua conseguem resolver seus problemas e continuam se dedicando à causa.

AACD
Na área física, a TO Renata Cristina Verri trabalha na AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) com adultos com deficiência física por conta de sequelas de AVC (acidente vascular cerebral, o popular derrame), traumatismo craniano, doenças neuro-musculares e lesão medular. O foco do trabalho é a melhora da funcionalidade, “sempre pensar no que está comprometido, trabalhar com isso, para a melhora do dia-a-dia do indivíduo”, afirma.

A TO explica que “é importante ver como é o ambiente em que a pessoa vive, para realizar treinos, propor adaptações e facilitações, para que a pessoa participe mais de sua vida e possa voltar a ser independente. Por que a realidade da Instituição é muito diferente do que o paciente vai enfrentar no seu cotidiano.” Renata afirma que é preciso ver o indivíduo como um todo, levando os lados físico, emocional e sensorial em conta: “realizamos o tratamento com um enfoque maior nos sistemas lesionados, mas sempre tendo o conjunto em vista.” A dica vale para qualquer campo de atuação da TO, que sempre procura resgatar ao indivíduo a autoestima e o cuidar de si mesmo.

Nasce uma campeã
Quando tinha 12 anos, Joyce Fernanda de Oliveira (hoje com 19) foi atingida por fragmentos que despencaram do teto do ponto de ônibus quando ela estava indo para a escola, na cidade de Jundiaí, no interior paulista. O acidente cortou sua medula e a deixou paraplégica. Joyce conta que, quando soube que não andaria mais, a primeira coisa em que pensou foi no futebol, que não poderia mais jogar.

Incentivada pelo professor de educação física, Joyce começou a jogar tênis de mesa, uma forma de pratica algum esporte e se animar. Hoje Joyce treina tênis de mesa três vezes por semana e já participou dos Jogos Parapan-Americanos Juvenis duas vezes, em 2007 (Venezuela) e 2009 (Colombia), tendo conquistado o ouro na categoria tênis de mesa individual em 2009.

“Depois do acidente eu fiquei um ano sem sair de casa, me escondia, tinha vergonha. Mas depois que comecei a praticar um esporte não paro mais em casa”, conta a atleta. Há cerca de 7 anos, Joyce começou a fazer tratamento na AACD, onde conseguiu retomar sua vida e aprendeu a se virar sozinha novamente. “Antes eu não saia sozinha na rua, não fazia nada sozinha. Na AACD me ensinaram a tomar banho sozinha, sair do carro, me virar. Hoje sempre que viajo pra jogar vou sozinha”, comemora.

Atualmente, Joyce se prepara para os Jogos Paraolimpicos de Londres, em 2012, e também para a Paraolimpiada no Rio, em 2016. No futuro, a atleta gostaria de fazer faculdade de Educação Física, “para dar aulas de tênis de mesa para quem estiver começando no esporte.”

Retranca:
Entenda um pouco mais sobre a TO.

Texto escrito entre fevereiro e maio de 2010 para o Portal Vital, da Unilever. A versão editada está disponível no site, cujo acesso é restrito a usuários cadastrados. Atribui uma data aleatória para a publicação do texto aqui no blog, apenas para mantê-lo como registro.

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