Se essa rua fosse minha

Em 20 anos, muita coisa muda em uma rua. Casas são demolidas, prédios, erguidos. Árvores caem, algumas são atropeladas. São muitos os modelos de carro que as construções que sobram viram passar. Muda a calçada, mudam os vizinhos, muda o bairro.

Aquele cachorro peludo, que parecia um urso e ficava visivelmente incomodado no verão, já não passeia mais pela calçada de ladrilhos. Não há mais ladrilhos, não há mais cachorro. Talvez tenha se mudado, talvez tenha morrido. Morreu a árvore frondosa, ali, quase no final da rua, foi atropelada no meio da madrugada. Deu até na rádio. Uma máquina da construção próxima, uma dessas retroescavadeiras, ou algo parecido. Acordei com o barulho, quando vi a pobrezinha já estava quase toda no chão, meio caída, sem energia, entrelaçada entre os fios. Já era antiga moradora da rua.

A escavadeira nem ligou, seguiu seu caminho logo depois que removeram o corpo. Voltou ao buraco onde hoje já se ergue vistoso prédio, ainda não concluído, mas quase lá. Dizem que é da Opus Dei. A maioria não entende, mas acha estranho. Antes daquela, outra grande máquina já criara buracos naquele mesmo local.

Ali havia uma casa imponente, já muito corroída pelo tempo. Cansada. Dentre as muitas famílias que ali moravam, dizem que um casal brigava quase todas as noites, com ameaças, polícia, facas e tudo o mais. Disso eu não me lembro. Era um cortiço, como tantas outras casas velhas do bairro. Quando tomei consciência da casa ali existente havia se transformado em uma oficina, depósito, algo assim. Uma única família tomava conta do lugar. Depois se foram, vieram carros, um ou dois funcionários. Depois se foi também a casa. E então veio o prédio, com seus tijolinhos aparentes e os vidros ainda não colocados nas janelas.

Muitas outras casas tombaram em minha rua. Nasci aqui, cresci em um prédio. O único do quarteirão. Hoje não mais. E não tardará para que seja um quarteirão repleto de prédios, como a rua de cima, e a outra, e tantas outras.

Eram todos vizinhos: a casa fantasma, a senhora com o estranho gorro preto no cabelo, o abacateiro. A casa de esquina há muito não se aguentava. Vidros quebrados, teto caído, a fachada cinza e os muros com tapumes. Quando finalmente foi demolida deu lugar a um posto de gasolina. Sua fachada decadente ainda trazia indícios do glamour que, imagino, tenha tido nos idos de 1950.

A senhora faleceu vítima de uma explosão de gás, diz o cabeleireiro vizinho ao meu prédio, que sabe de todas as fofocas da rua. Ao que parece, não queria sair do quarto que ocupava na pequena casinha. Já que o acidente doméstico se encarregou do problema, a casa foi vendida. O abacateiro resistiu por mais tempo, mas um dia também o levaram. Ficava na frente de uma casa com a fachada verde. Alguns dizem que se vendiam drogas ali.

No pequeno quarteirão, pelo menos 7 casas já tombaram. Seus habitantes foram empurrados mais uma vez para a periferia, suas histórias se foram, e com eles grande parte do bairro da Bela Vista, de casinhas e vilas operárias que os italianos por aqui construíram no começo do século. Fico imaginando como era a casa que tombou para dar lugar ao meu prédio. E quantas histórias ainda serão levadas pelas caçambas de entulho.

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2 responses to “Se essa rua fosse minha”

  1. Ricardo says :

    Eram duas casas. O cortiço foi totalmente demolido, e logo virou estacionamento. A construção restante era parte de uma casa que abrigou uma base da CET, depois alguma coisa comercial obscura, penso que um laboratório, e em seguida teve a construção principal demolida, deixando apenas a edícula do fundo de pé, que abrigou a tal família e seus churrascos barulhentos no fim de semana. Enquanto a coisa comercial obscura funcionou nessa casa, foi erguido uma cobertura com telhas transparentes entre a construção principal e a edícula do fundo. Essa cobertura permaneceu algum tempo ainda, depois foi retirada, e depois foi refeita, já sem a construção principal, tornando possível algumas vagas cobertas no estacionamento. O prédio da esquina com a Martiniano já estava lá quando o nosso foi construído. A casa onde hoje está o posto de gasolina já foi uma venda, boteco, essas coisas. A padaria/boteco da outra esquina já foi bem mais precária que isso, com um acabamento em bambu e diversas máquinas de jogos.
    Quando da demolição do cortiço ao lado, tijolos e telhas foram cuidadosamente retirados, possivelmente vendidos para uma loja de material de construção usado. Pelo que me lembro, o casal que brigava ficava no cortiço em frente, ao lado do sobrado vazio que depois eu descobri ser do João, um dos malucos que perambula pela USP e que passava muito tempo no prédio da História, com seus cachorros. Isso me fez ter certeza que aquela impressão de ter visto um cachorro igualzinho a um dos cachorros da USP na nossa rua não era apenas uma impressão. Ao que tudo indica, ele foi expulso de lá, ouvi dizer que por um problema de herança, mas não lembro quem disse isso. O fato de aquela casa que abrigou dezenas de famílias ter sido construída para apenas uma até hoje me impressiona.

  2. karen kipnis says :

    Olá, Bruna, adorei seu blogue e textos! Beijos, Karen Kipnis

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