Um breve giro pela História através dos filmes

Posted on 12/janeiro/2009 by Cinéfilos4 comentários

Partindo do começo do século XX, lhes conto, através dos filmes, um pouco da Era dos Extremos de que fala o historiador Eric Hobsbawn: de maneira figurada, o século XX foi o período entre a eclosão da 1ª Guerra Mundial, em 1914, e o colapso na União Soviética (URSS), em 1991.

feliz-natal2Comecemos por Feliz Natal (Joyeux Noel, 2005): durante a 1ª GM, soldados franceses, alemães e escoceses presos em uma frente de batalha durante o Natal param a guerra por uma noite e confraternizam entre si. Depois tudo voltou ao normal e os soldados foram punidos por seus superiores, acusados de confraternizar com o inimigo. O filme foi baseado em uma história real de solidariedade entre homens sofridos que trocaram comidas, bebidas e alegrias durante a noite de Natal de 1914. No filme, os soldados de cada país falam suas próprias línguas e os atores que os interpretam são também originários destes. O roteirista e diretor Christian Carion soube respeitar as nacionalidades e não colocou alemães e franceses falando inglês.

Da Primeira Guerra saltamos para a Revolução Russa com Reds (Reds, EUA, 1981, 188 min). Dirigido e estrelado por Warren Beatty, constrói uma cinebiografia do jornalista norte-americano John Reed, que esteve presente na Revolução Russa de 1917 e sonhou em liderar uma revolução semelhante nos Estados Unidos. O filme é um retrato dos acontecimentos da Revolução Russa e se baseia no livro Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, um livro-reportagem sobre o que Reed presenciou durante sua estada na Rússia.

dr-jivagoOutro filme que vale a pena citar aqui é Doutor Jivago (Doctor Zhivago, EUA, 1965, 200 min). Baseado em um romance homônimo, conta a história de um médico russo, desde sua infância, ainda na Rússia czarista, até a crise e os expurgos da nobreza, nos anos 20 e 30. A História é pano de fundo para os acontecimentos da vida de Yuri Zhivago (Omar Sharif) e o filme é um pouco cansativo, mas a bela fotografia que destaca as paisagens da Rússia e a trilha sonora salvam o longa.

Às vésperas da 2ª Guerra Mundial, a Guerra Civil Espanhola (1936-39) dividiu o mundo entre duas correntes ideológicas. Após uma crise da monarquia, inicia-se a Segunda República espanhola e a Frente Popular, de esquerda, vence nas eleições de 1936, o que provoca grande descontentamento por parte da direita, que em 16 de julho daria início à Guerra Civil com um golpe militar, na tentativa de derrubar o governo democraticamente eleito. Tendo apoio da Igreja Católica, do Exército e dos latifundiários, o grupo rebelde, liderado por Francisco Franco, buscava implantar um regime fascista na Espanha.

Enquanto os rebeldes tinham apoio dos poderosos exércitos alemão e italiano (de Hitler e Mussolini), a Frente Popular contou apenas com ajuda da URSS e das Brigadas Internacionais, compostas por militantes socialistas de todo o mundo, além do apoio de intelectuais de vários países. Os diversos problemas de organização interna e a carência de armas e suprimento não puderam fazer frente ao exército de Franco, que assumiu o poder em 1º de abril de 1939. Esta movimentação e o drama da Frente Popular e dos voluntários que se aliaram à luta na Espanha foram retratadas no filme Terra e Liberdade (1995), que conta a história de um inglês que se junta aos espanhóis em defesa de seus ideais democráticos.

A segunda guerra

world-war-2Exatos 5 meses após o termino da Guerra Civil Espanhola, o exército alemão invadiria a Polônia, dando inicio à 2ª Guerra Mundial. De setembro de 1939 à maio de 1945, a guerra arrasou a Europa, a Rússia, o Japão e passou por algumas ilhas do Pacífico, sendo tema de vários filmes que abordam o holocausto, o extermínio de judeus, o desastre atômico japonês, as batalhas em si ou a destruição dos países e as conseqüências que enfrentaram.

Dentre os filmes sobre este período, é interessante perceber como Casablanca (produzido em 1942), apesar da aparência de simples romance, defende os ideais dos Aliados (maior parte da Europa, Rússia e, posteriormente, EUA) em detrimento do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e seu final, visto hoje, pode ser considerado como uma profecia de que tudo daria certo para os Aliados. Ainda bem que deu, caso contrário este filme provavelmente teria sido banido das locadoras!

O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin foi o primeiro filme a denunciar as atividades da Alemanha nazista. O comediante, que não gostava de filmes falados, brilhou nesta sátira, com direito a discurso imitando Hitler e monólogo em defesa dos direitos humanos em plena Segunda Guerra.

Nos filmes produzidos posteriormente é comum vermos retratos da destruição e sofrimentos provocados pela guerra, como em O Pianista, em que Adrien Brody interpreta um pianista judeu e polonês que se esconde em guetos e passa por situações terríveis para fugir aos alemães, sobrevivendo assim até o final da guerra.

Neste meio, destacam-se filmes que despertam sutilezas por traz dos acontecimentos. A Vida é Bela, vencedor de 3 Oscars em 1998, conta a história de um pai que tenta proteger seu filho de um campo de concentração, escondendo-o e inventando que todo aquele cenário é parte de um jogo do qual o menino deve sair campeão.

No recente Um homem bom (Good), um professor universitário se deixa enredar pela ideologia nazista até o momento em que se olha no espelho e esta usando a farda negra da SS, a guarda especial e de elite nazista. Apesar de ser falado em inglês, este filme mostra um lado importante de como cidadãos bons e comuns contribuíram para a perseguição de judeus e a construção do poder do nacional-socialismo.

O Pós-guerra

Terminada a Segunda Guerra, o cinema salta para temas como a Guerra Fria. Em seu Dr. Fantástico (1964), Stanley Kubrick retrata o louco frenesi da corrida nuclear. A Culpa é de Fidel, coloca uma menininha confusa e dividida entre a educação católica e conservadora que teve e a nova ideologia comunista de seus pais. No Brasil, O Ano em que meus pais saíram de férias coloca com menino que, sem perceber, perdeu seus pais para a ditadura militar, em meio à copa de 1970.

a-vida-dos-outrosA Alemanha dividida e as conseqüências que a imposição de um governo socialista teve sobre Berlim e seus habitantes são tema de A Vida dos Outros (2006, 137 min), vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 1984 na Berlim Oriental, o bem-sucedido dramaturgo Georg Dreyman e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sielandum, começam a ser vigiados 24h por dia, com escutas e câmeras em seu apartamento. O filme é ágil, apesar das mais de 2h, e traça um retrato da situação vivida por intelectuais e artistas na Alemanha oriental pós-guerra.

Se na 1ª GM Daniel Brühl interpreta o comandante da frente alemã (em Feliz Natal), agora no final do século ele volta como Alexander Kerner, um jovem que busca proteger sua mãe das fortes emoções que ela pode ter ao saber da queda do muro de Berlim, em Adeus, Lênin! (2003). O filme retrata a transição que a Alemanha oriental sofreu após a queda do muro, em 1989, e o impacto que as mudanças tiveram sob os cidadãos alemães.

Para finalizar, o documentário Nós que aqui estamos por vós esperamos compõe um mosáico de memórias do século XX, com cenas de arquivo, memórias de personalidades e pessoas comuns. O retrato político cotidiano pode ser visto, de forma satírica, nos dois últimos filmes dos irmãos Coen, Queime depois de Ler e Onde os Fracos não têm vez, que retrataram nosso mundo (com foco nos EUA) de forma bem humorada e ao mesmo tempo cruel. Críticas divertidas e ácidas que merecerão ser lembradas em futuros artigos sobre a história nos cinemas.

Republicado neste blog em 14/06/2011 – atribui uma data aleatória apenas para manter o texto aqui como registro, já que este blog ainda não existia na data de publicação do texto acima. O site Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP, agora está hospedado no http://cinefilos.jornalismojunior.com.br/.

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