Em nome do Pai

Um filme incrível, excelente performance de Daniel Day Lewis. – assim poderia ser uma aspa creditaria a um grande crítico de cinema em um anúncio deste filme.

Inicialmente postado em 22/08, agora revisado e finalizado. CONTÉM SPOILERS

em nome do paiEm nome do Pai (In the Name of the Father, Irlanda/Grã Bretanha/EUA, 1993) é um filme intrigante, que nos faz questionar a justiça, seus sistemas e truques. Se em seriados como Law and Order sempre vemos os verdadeiros culpados serem presos e condenados (ou quase sempre), na vida real não é bem assim.

O filme é simples: o roteiro, bastante linear, foi baseado na história real dos “quatro de Guildford”, um dos maiores equívocos do sistema de justiça britânico. A fotografia e os enquadramentos são bastante convencionais, ainda que a câmera seja ágil nas cenas em que isso se faz necessário – como nas brigas que vivenciam o protagonista e seu pai na prisão.

Em 1974, durante um dos momentos mais tensos das lutas entre Inglaterra e Irlanda do Norte, uma explosão executada pelo IRA (Exército Republicano Irlandês) matou quatro pessoas em um pub em Guildford, Londres, na noite de 05 de outubro. A polícia britânica tratou de prender e condenar os suspeitos: quatro jovens foram condenados a prisão perpétua pela explosão, considerados membros da alta inteligência do IRA; outras sete pessoas, incluindo dois meninos de 14 e 16 anos, foram condenadas por oferecer ajuda logística com os explosivos. Eram todos inocentes. Quem narra a história é Gerry Conlon, jovem irlandês que foi considerado comandante do crime.

Os cabeças da operação eram três rapazes e uma moça, hippies que viviam em uma casa abandonada, dois deles irlandeses. Os outros sete eram da família de Gerry: parentes próximos de uma tia materna e seu pai, que foi mandado para a mesma penitenciária que o filho.

em nome do pai2Gerry é brilhantemente interpretado por Daniel Day Lewis, com seu impecável sotaque irlandês, que soube marcar no vídeo a forte personalidade de seu personagem. (Fora a aparência: o filme é de 1993, Day Lewis estava com 36 anos, mas no começo do longa o personagem tem apenas 20 anos, e lembra o papel do ator como Tomas, o galã de A Insustentável Leveza do Ser, filme de 1988 baseado no maravilhoso livro de Milan Kundera.)

Após lutar por justiça, perder o pai na cadeira e cumprir 15 anos de uma pena indevida, Gerry foi solto em 1989, assim como seus três amigos que estavam presos sob alegação de terrorismo. Em fevereiro de 2005 o então primeiro ministro Tony Blair pediu desculpas oficiais a todos os 11 envolvidos neste episódio, que foram injustamente condenados. Em um momento de fúria contra os irlandeses e apreensão em todo o país devido a ataques e explosões, 11 inocentes foram condenados a penas que variaram de 7 ou 8 anos (para as crianças) a prisão perpétua, para os quatro amigos.

O pai de Gerry, que sofria problemas do coração, não sobreviveu à vida e à amargura da prisão. Para honrar seu nome, Gerry empreendeu uma luta que a principio levou à revisão do julgamento dos 11 envolvidos no caso – todos perdoados publicamente, embora muitos deles já houvessem cumprido suas penas e todos já tivessem perdido boa parte de suas vidas e juventudes.

Este é um filme que vale a pena ser visto. Seus 133 min passam sem serem percebidos, a história nos envolve e o destino que os personagens vão tomando nos preocupa. (Obviamente, seria melhor que você, leitor, já tivesse visto o filme, ou ao menos conhecesse está história, pois, caso contrário, creio que estraguei grande parte do envolvimento que tive com o longa. Se foi o caso, peço desculpas! – Mas que fique claro que eu avisei!)

Saber que um filme como este é baseado em um história real, saber que Gerry Conlon realmente existiu e passou por todos os dramas ali retratados (fora aqueles que sequer imaginamos), desperta indignação para com a forma como todo nosso mundo funciona. Se a sociedade de baseia em leis e no sistema de justiça, tudo parece ruir quando nos confrontamos com uma verdade sabida, mas que tentamos sempre ignorar: nosso sistema não funciona. E é triste perceber que não conseguimos achar soluções, é triste perceber que todas as alternativas tentadas fracassaram.

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One response to “Em nome do Pai”

  1. Caio says :

    Seria interessante adicionar à reflexão o tópico que indague porquês acerca do não-funcionamento da justiça. No mais, achei que faltou um pouquinho e aprofundamento de um ou dois elementos formais do filme, relacionando-os, talvez, com os aspectos históricos, o que tornaria a análise mais interessante. Da forma como está, pertence a um gênero de comentário sobre o filme que conta o enredo e faz algumas apreciações acerca da validade ou não de assistir o filme. É válido, mas acho o outro tipo mais interessante, principalmente quando o filme trata de temas históricos. Aliás, sobre isso não tenho nenhuma objeção. Não conhecia a história contada pela obra e fiquei interessado. O texto precisa ser revisado. Você estava com sono, hehe. Revisado, funcionará bem como um comentário geral acerca da película.

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