A guerra dos sexos em seu lado mais cruel

A começar pelo título, XXY já é um filme intrigante. O enredo da menina hermafrodita que já não sabe mais se quer mesmo ser mulher levou o Grande Prêmio da Crítica do Festival de Cannes 2007, o Goya de melhor filme estrangeiro de língua espanhola no mesmo ano e mais outros nove prêmios em festivais internacionais.

O filme é baseado no conto Cinismo, do escritor argentino Sergio Bizzio, marido da diretora Lucia Puenzo, que adaptou a história e colocou-a brilhantemente nas telas dos cinemas. O elenco selecionado garante ótimos momentos a este filme, ainda que a discussão em torno do dilema da personagem principal seja rasa.

Alex (Inês Efron) nasceu hermafrodita e seus pais acharam melhor não corrigir a ambigüidade de sexos ainda no hospital. Para inibir o crescimento de barba e manter sua aparência feminina, Alex precisa tomar corticóides diariamente. Aos 15 anos, porém, o lado de sua sexualidade masculina parece atraí-la mais do que o feminino, e Alex para de tomar seus remédios.

Seus pais temem os efeitos que a falta dos hormônios teriam sobre o corpo de sua filha: ela perderia sua aparência feminina e começaria a se masculinizar, até tornar-se verdadeiramente homem, necessitando para isso de uma cirurgia que mudaria todas as perspectivas construídas. O ápice deste dilema se revela no momento em que o pai da menina – o biólogo marinho Kraken, interpretado pelo fantástico Ricardo Darín – procura um homem que nasceu hermafrodita e foi menina até os 17 anos de idade.

No auge de sua adolescência, Alex tem suas dúvidas quanto à sexualidade intensificadas por sua condição e pelos problemas que isso já lhe trouxe: a família mudou-se de Buenos Aires para uma pequena cidade litorânea no Uruguai, seu ex-melhor amigo cortou relações com ela ao descobrir seu segredo e as pessoas que sabem sua história olham-na de forma diferente e preconceituosa.

A vinda de um casal de amigo para sua casa e o envolvimento posterior de Alex com Álvaro (Martin Piroyanski), o filho rejeitado do casal, faz com a menina perceba suas dúvidas sexuais de forma clara. O pai de Álvaro é um cirurgião plástico que rejeita o filho por suas opções sexuais ainda não definidas. Neste ponto se percebe que não apenas a adolescente hermafrodita tem contradições quanto a sua opção sexual e que as escolhas desta fase são complicadas para qualquer adolescente.

O filme mostra a importância do apoio familiar nas decisões de qualquer jovem. O debate sobre o “problema” de Alex não é tão desenvolvido como poderia, mas o enredo envolvente mantém o ritmo da narrativa, que nos revela o quão cruel pode ser o desprezo humano pelo diferente.

XXY (Idem, Argentina/Espanha, 2007)
Dirigido por Lucia Puenzo
Com: Inês Efron, Ricardo Darín, Valeria Bertuccelli, Germán Palácios, Carolina Pelleritti, Martín Piroyansky, César Troncoso

Texto escrito no começo de abril de 2008 como teste para entrar para o Cinéfilos, projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da ECA-USP. Atribui uma data aleatória para mantê-lo como registro.

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