Archive | 04/07/2011

Livro: A Passagem Tensa dos Corpos, Carlos de Brito e Mello

Conclui meu TCC, sobre novos escritores brasileiros, e passei algum tempo sem querer voltar no assunto, mas agora que a FLIP se aproxima fiquei com vontade de escrever sobre Carlos de Brito e Mello e Leandro Sarmatz, dois autores que fazem parte do meu trabalho e estarão em uma mesa na Casa de Cultura durante a FLIP 2011 (sábado, dia 9, 15h15).

Assim, dedico um primeiro post ao livro ”A Passagem Tensa dos Corpos”, de Carlos de Brito e Mello (foto), que foi possivelmente a leitura que mais me impressionou dentre os 10 livros de novos autores (1º livro de contos ou romance do escritor) que li até aqui (9 deles especialmente para o TCC). Não digo que seja meu preferido, porque seria uma escolha injusta, ao menos 5 dos 10 livros são incríveis.

Mas ”A Passagem Tensa dos Corpos” tem um cuidado linguístico que impressiona positivamente. E conversando com o autor percebi que tudo fazia sentido na narrativa. Explico: o romance tem um narrador que é uma língua, nem vivo, nem morto, meio invisível, mas não onipresente, um personagem intrigante que vai se explicando ao longo da trama:

“Corro porque enuncio que corro. (…) Sou aquilo que anuncio ser, conquanto me falte consistência e certeza. Se tenho dúvida ou se me equivoco é porque a dúvida e o equívoco são também acontecimentos da linguagem.” (pág. 117)

A partir desse narrador se constroem frases quebradas, que acabam de modo estranho e outras que começam sem maiúsculas no parágrafo seguinte. Como neste caso:

“Toda palavra proferida ao redor da morte comporta, pelo menos, um fonema enlutado, e as perturbações de fala são formas pelas quais
morrer obseda a língua.” (pág. 12)

Os capítulos são curtos e, à narrativa principal, de uma família cujo pai, morto, é mantido insepulto na sala de jantar, alternam-se pequenos relatos de mortes em Minas Gerais. A “profissão” do narrador é contar falecimentos com breves detalhes pelas cidades que percorre, todas no estado de Minas Gerais, onde Carlos de Brito e Mello nasceu e vive até hoje.

Assim, quando conversei com o autor, percebi que tudo tem uma explicação: as frases quebradas, as cidades serem em Minas, ser um pai morto em uma sala de jantar…

Fora isso, que não fica claro em uma primeira leitura, o romance tem ritmo, mantem a curiosidade e, como o narrador, nós, leitores, também vamos ficando intrigados com os motivos que levam aquela mãe e filha a manterem o pai morto preso em uma cadeira na sala, dando comida para ele e ignorando sua morte. Ou o que leva o filho do casal a nunca sair de seu quarto. Não fosse estranho o suficiente, a filha ainda planeja um casamento sem noivo – e a mãe acha tudo normal.

Os primeiros capítulos do livro, em PDF, estão disponíveis AQUI.

AQUI, algumas informações reunidas sobre a programação da FLIP 2011.

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